Os primeiros mil dias

Os primeiros mil dias
Foto: Gabrielle Gimenez

Cada dia de nossas vidas importa.

Mas estudos tem demonstrado que “começar” bem faz toda diferença na qualidade dos nossos dias no resto de nossas vidas. Especialmente os primeiros mil. Os 270 dias da gestação, mais 365 do primeiro e 365 do segundo ano de vida totalizam 1000 dias. E é nesse período que ocorrem as principais evoluções, modificações e adaptações que o ser humano necessita vivenciar para se adequar ao mundo, tanto física quanto emocional e cognitivamente. Por esse motivo a Organização Mundial de Saúde e demais órgãos competentes da infância ratificam com frequência a importância desse período no desenvolvimento humano.

Ao contrário do que se pode imaginar, a criança não nasce como uma página em branco… Ela já chega no meio externo com uma série de informações que recebeu durante a existência intraútero. Tais mensagens irão ajudar ao bebê a se adaptar ao meio no qual será inserido ao nascer. Os sentidos básicos que nós temos são primariamente desenvolvidos e ajudam o bebê a captar as informações e modular suas capacidades de forma adaptativa. O bebê consegue, por exemplo, a partir de sua audição ainda dentro da barriga, distinguir sons que lhes são familiares, como a voz dos seus pais, músicas ou livros que eles costumavam ler e até mesmo a melodia do idioma que escuta. Estudos mostram que os bebês choram em diferentes frequências ao redor do mundo de acordo com a língua que se fala onde vivenciou a gestação.

Algo semelhante acontece com o paladar. Ao engolir fisiologicamente o líquido amniótico o bebê já começa a diferenciar e se familiarizar com os sabores. Essas informações serão importantes quando meses depois iniciar a introdução alimentar. A criança tende a registrar primordialmente que o que a mãe se alimenta é algo seguro para que ele tenha predileção. Assim podemos afirmar que o desenvolvimento começa antes mesmo do nascimento e que importantes informações já podem ser enviadas ao bebê como forma adaptativa e ainda mais emotiva. Reconhecer o aconchego da voz materna, no idioma familiarizado, os cheiros e sabores da vida intrauterina gera na criança sensação de pertencimento e segurança, tão
importantes para um desenvolvimento adequado, saudável e afetuoso.

Após o nascimento, a criança passará então por uma importante transição entre o meio interno e o externo. Esse período de adaptação recebe o nome de exterogestação e dura em média 3 meses. Antropólogos defendem que nossos primórdios, ainda quadrúpedes, apresentavam gestações de 12 meses. Porém, durante a evolução, foi necessário torna-se bípede e, para um compatível equilíbrio, a pelve menor passou a ser característica de melhor adaptação. Surgiu então um problema: a desproporção cefálico-pélvica. Ou seja, o bebê de 12 meses de idade gestacional não passaria pela pelve estreita do bípede adapto. Assim as gestações passaram a durar apenas 9 meses. Com o nascimento “prematuro” era viável o nascimento, a
sobrevivência do bebê e evolução da espécie. Possivelmente foi dessa forma que o tempo da gestação foi estabelecido e que os bebês começaram a nascer ainda tão imaturos e dependentes. Compreender isso é importante para vivenciar os 3 primeiros meses do bebê de forma acolhedora e consciente de suas demandas e a importância de monetizar o ambiente
intrauterino, como dar muito colo, aconchego, calor humano e sons familiares, como o coração materno.

A partir daí o bebê passa a vivenciar ganhos de crescimento e desenvolvimento em importantes e impressionantes saltos. A plasticidade cerebral dessa época é a mais intensa e efetiva de toda a vida. É nesse período que eles vão captar informações em uma velocidade sem igual e produzir sinapses neuronais de intensa importância para o arcabouço neurológico do resto de suas vidas. Irão aprender a balbuciar, falar, sentar, rolar, engatinhar, andar, a comer… todos esses ganhos em um
intervalo ínfimo. Além disso, irá desenvolver os principais vínculos afetivos, que serão fundamentais para capacidade de relações sociais futuras e mecanismo de defesa emocional.

Investir, portanto, nos primeiros mil dias de vida da criança é a chave para uma vida adaptada, segura e feliz para todos os próximos dias que virão.


Texto de Luíza Menezes, mãe do Tom, pediatra e autora do livro Livres Brincar.

Você pode acompanhar o seu trabalho no Instagram @infancia_fora_da_caixa.

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