É possível criar filhos sem telas na era digital?

É possível criar filhos sem telas na era digital?
Foto: Gabrielle Gimenez

Este é um relato pessoal da nossa experiência de desintoxicação digital feita em setembro/outubro de 2019 e os aprendizados decorrentes de tudo o que vivenciamos.

Fui mãe pela primeira vez sem ter muita informação sobre quase tudo o que é realmente importante saber sobre desenvolvimento infantil. Eu sempre usei telas com o Nando, meu filho mais velho, porque eu cuidava dele sozinha, porque eu pensava que era uma boa maneira de entretê-lo (ele parecia tão concentrado e satisfeito enquanto assistia os vídeos!) e que ele precisava disso, e, principalmente, eu achava que era algo inócuo.

A medida em que ele foi crescendo, continuei usando-as em maior ou menor grau para distraí-lo quando precisava fazer alguma coisa. Eu também não tinha informações sobre a quantidade de tempo de uso por idade e as recomendações oficiais. Com a chegada dos gêmeos quando o Nando tinha 3 anos recém-completados, o tempo de exposição às telas aumentou, em virtude da nova dinâmica na família, e dos critérios que cada umas das pessoas que ajudavam a cuidá-lo utilizava. Ele apresentou um atraso significativo na fala entre outros problemas comportamentais que, só alguns anos mais tarde, associei ao uso precoce e à superexposição a telas.

A esta altura, eu já tinha um pouco mais de informação, então criei os gêmeos sem acesso a telas até os dois anos de idade, segundo as recomendações oficiais. Dessa maneira, também controlava o uso pelo mais velho. Mesmo depois dos dois anos, fiz uma introdução bastante controlada, respeitando o período de exposição máximo recomendado por dia e tentando não tornar seu uso habitual.

Cuidar sozinha deles facilitou a manutenção dos critérios que havia escolhido. O problema começou quando outros cuidadores (avós!) entraram em cena, cada um com sua própria maneira de ver o assunto. A certa altura, eu já estava incomodada com quão rotineiro o momento dos vídeos havia se tornado, como eles o exigiam e, às vezes, como era difícil negociar mudanças.

No ano passado, por uma situação inesperada, fiquei sozinha com eles novamente. Então aproveitei a oportunidade para fazer de forma bastante intuitiva um período de desintoxicação de telas. Ficamos em zero telas por 21 dias, período em que eu os esperava depois da escola com diferentes propostas e atividades: passeios, trabalhos manuais, jogos de mesa, leitura, tempo ao ar livre, etc. Foi um período demandante, mas eu estava muito determinada a fazer dar certo.

[Na galeria abaixo fotos de algumas atividades que realizamos durante o período de desintoxicação digital. Na época fiz uma espécie de diário nos stories do Instagram com reflexões, sugestões e relatos de outras seguidoras. Parte deste material ficou salvo nos destaques com o nome Telas.]

  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital
  • Desintoxicação Digital

Também não havia proposto um objetivo, então ia um dia de cada vez, priorizando a conexão com eles e não apenas a elaboração e execução da atividade em si. Eu imediatamente senti as mudanças de comportamento (menos ansiedade, birras e reclamações de tédio) e mais facilidade com o ritual da hora de dormir (eles dormiam mais rápido, mais tranquilos e os gêmeos mamavam menos).

Minha ideia não era remover definitivamente a tecnologia de suas vidas, mas ressignificar o seu uso e frequência. Depois deste período, em algumas situações, especialmente fora de casa ou quando chovia e não podíamos sair, eles acabavam assistindo algo. Mas a experiência serviu para que eles e nós (meu marido a princípio não acreditava muito no que eu estava fazendo) pudéssemos ver que não era de forma alguma algo indispensável para o dia a dia. E o que eu não esperava: que os efeitos positivos dessa desintoxicação seriam tão consistentes e prolongados.

Pouco antes das férias de verão (dezembro/2019), nossa smart TV quebrou (a única tela à qual eles tinham acesso eventual) e, com o tempo, eles simplesmente esqueceram que ela existia. Passamos meses sem tela em casa e eles tiveram férias com muitos jogos e tempo ao ar livre. (Este havia sido um questionamento que recebi na época: se eu achava que seria possível fazer isso sem o apoio do tempo que eles passavam fora de casa na escola. E a resposta foi: Sim!)

No dia a dia troquei os vídeos por música para preencher o ambiente, usando caixinha de som com conexão Bluetooth. Eles tomavam a iniciativa para criar seus próprios jogos e brincadeiras e lidar com o tédio de maneira que não exigiam tanto de mim quanto no início, quando muitos me perguntaram se eu realmente achava possível realizar minha ideia de vida sem telas a longo prazo, devido à demanda que isso me representava.

E então veio toda a questão da pandemia e da quarentena obrigatória na Argentina em março/2020. Estamos trancados em casa com três crianças há 38 dias e não tivemos que nos render às telas. Em dias de chuva, fazemos uma sessão de cinema em família. Estamos usando a tecnologia para levar adiante as atividades de continuidade pedagógica enviadas pela escola, e eventualmente usamos por períodos de 1 hora com conteúdo educacional adequado à idade, porque o pai e eu precisamos trabalhar em casa e também relaxar um pouco da intensa demanda do confinamento.

Obviamente a tecnologia tem um lado positivo, e se bem utilizada pode ser bastante útil, especialmente como disparadora de experiências que saem do plano virtual para o real, para serem vivenciadas com interação, conexão, reflexão e espírito crítico. Porém, é evidente que a nossa cultura não tem sabido administrá-la como convém, e no que diz respeito às crianças, o seu uso tem sido excessivo, com perigosas consequências.

Se você me perguntar se a vida é possível sem telas, eu digo que sim. Tudo depende da maneira como encaramos as relações humanas e seu impacto na estimulação correta do desenvolvimento infantil. A conexão entre pais e filhos nunca poderá ser superada ou substituída por dispositivos eletrônicos ou telas de qualquer tipo, e é importante ter isso bem claro, mesmo nos dias em que por diversas razões se perca a batalha para estes elementos. Vale a pena parar, estudar sobre o assunto, refletir com autocrítica, desintoxicar-se e posteriormente repensar crenças, rotinas e estilo de vida.

[Leia mais em: Por Que os Bebês Não Devem Ser Expostos às Telas?]


Por Gabrielle Gimenez @gabicbs, mãe do Fernando (7) e dos gêmeos Matias e Beatriz (4).

[Sou extremamente grata à Ana Fischer e o trabalho que realiza no perfil do Instagram @crianzacibersegura que me deu inúmeros fundamentos e informações relevantes e confiáveis ​​para realizar esta odisseia cujos resultados continuamos desfrutando.]

Deixe uma resposta