Por que os bebês não devem ser expostos às telas?

Foto: Gabrielle Gimenez

Vários anos atrás, um médico pediatra e pesquisador tirou licença paternidade. Enquanto passava grande parte do dia com seu filho de três meses no colo, percebeu o enorme interesse do garoto pela TV. Em sua palestra no TEDx, Dimitri Christakis[1] relata essa experiência como reveladora para suas investigações subsequentes. Ele se tornou uma das principais referências na tentativa de entender qual é o impacto das novas tecnologias no cérebro de bebês e crianças pequenas.

Quando pensamos nos bebês, devemos entender que eles estão em um estágio crítico de desenvolvimento. Eles nascem com um cérebro de aproximadamente 333 gramas e com 2.500 conexões. Em menos de dois anos, seu cérebro triplica de tamanho e eles têm mais de 15.000 conexões neurais. Em nenhum outro momento de nossas vidas, experimentamos essa mudança.

Nesse contexto, onde a infância está sendo tecnificada de maneiras sem precedentes, foi feita a seguinte pergunta: É possível estimular inadequadamente o cérebro em desenvolvimento de maneira prejudicial e não benéfica? E a resposta foi que existem certas coisas que podemos fazer no início da vida de nossos filhos e filhas que melhoram sua capacidade de prestar atenção e certas coisas que podemos fazer desde cedo que realmente a impedem, como expor a uma tela.

Mas por que um bebê não pode parar de olhar para as telas?

Em princípio, sabe-se desde os anos ’68 que um bebê não pode parar de olhar para as telas. Segundo Adam Alter, em seu livro Irresistible[2], um grupo de pesquisadores descobriu que as crianças são “viciadas em movimento”; e qualquer coisa que se mova diante de seus olhos, não podem parar de olhar para ela. Logicamente, as ciências avançaram e esta terminologia já não é utilizada. No entanto, o interessante sobre o resgate dessa primeira pesquisa é que os bebês não conseguem parar de olhar para algo que está se movendo diante de seus olhos. É por isso que as famílias são surpreendidas pelo aparente interesse. Alguns até mencionam que os bebês “parecem contorcionistas” pois fazem de tudo para olhar para uma tela.

Por outro lado, quando um bebê olha para uma tela, ele não tenta fazer uma narração coerente como um adulto o faz. A mudança de cena, a iluminação, o som é o que os mantém realmente envolvidos. Dimitri diz que “a exposição prolongada a essa rápida mudança de imagem durante essa janela crítica do desenvolvimento do cérebro pré-condicionará a mente a esperar altos níveis de entrada, o que levaria à desatenção na idade adulta”[3]. Ele continua explicando “especificamente para cada hora que eles viram [de telas] antes dos três anos de idade, suas chances de ter problemas de atenção aumentaram em cerca de 10%”[4]. E pelo contrário, descobriram que crianças cujos adultos liam para elas, cantavam para elas etc., reduziram as chances de problemas de atenção em 30%. A conclusão é que meninos e meninas precisam de jogos em tempo real com meios menos rápidos.

Em outra entrevista, o Dr. Dimitri Christakis explica que “o que sabemos sobre bebês que brincam com iPads é que eles não transferem o que aprendem do iPad para o mundo real, ou seja, se você der a uma criança um aplicativo em ela brinque com Legos, blocos virtuais e empilhá-los, e depois colocar blocos reais na frente deles, elas precisam começar do zero.”[5]

A importância do olhar para entender o mundo

Linda Stone fala de “atenção parcial continuada”. Ela explica que “a maneira como os adultos estão cientes dos telefones celulares pode interromper o antigo sistema de sinais emocionais de nossa própria espécie”. Por sua vez, Hirsh-Pasek explica que “as crianças pequenas não podem aprender quando interrompemos o fluxo de conversas pegando nossos telefones celulares”.

Não é sobre moda, mas sobre saúde

Há frases como “a tecnologia faz parte de suas vidas, não pode ser evitada”, “são nativos digitais”, “não podem ser deixados de fora”. A esse respeito, convido a ler e ouvir Catherine L´Ecuyer[6], que trabalha como disseminadora de pesquisas científicas sobre esses tópicos. Ela diz que “o trem da tecnologia não se perde” e “deixá-los na frente da tela é como pretender dar água para eles beberem de um hidrante e esperar que não se molhem”.

A Academia Americana de Pediatria, assim como a OMS, recomenda zero telas para crianças menores de dois anos. E de dois a cinco anos, pesquisadores como Dimitri Christakis recomendam um tempo máximo de telas de apenas meia hora. Esse tempo é baseado no tempo máximo que uma criança pode manter o foco brincando com blocos reais.

Bebês e crianças precisam dormir

Para cada hora que bebês e crianças de 6 a 36 meses usavam dispositivos touchscreen, isso foi associado a 15,6 minutos a menos de sono[7].

No último relatório sobre infância e tecnologia, a OMS[8] enfatiza a necessidade de proporcionar sono de qualidade e adequado para bebês e crianças. Ele acrescenta em cada recomendação que sempre que for necessário um tempo sedentário ou como dizemos “esse tempinho para que fiquem quietos”, os adultos devem se esforçar para ler e contar histórias.

Atraso na aquisição da linguagem

No meu perfil do Instagram, recebo dezenas de mensagens de profissionais da área de saúde, alarmados com o atraso na aquisição da linguagem e com a pouca linguagem em crianças pequenas. Um pediatra descreveu a situação no consultório como dramática. E não é um exagero.

No final de 2017, o Encontro das Sociedades Acadêmicas Pediátricas foi realizado na Inglaterra. No documento publicado, se alerta que “cada 30 minutos adicionais de tela está associado a um aumento de 49% no risco de atraso expressivo na fala em crianças menores de dois anos”.

E as videochamadas?
Nesse caso, a Academia Americana de Pediatria é categórica e continua a dizer para não expor às telas. Só faz uma exceção para videochamadas a partir de 18 meses.

Dicas para não se render às telas

É compreensível que diante da onipresença de telas como TV, telefones celulares, tablets, etc., surja a pergunta sobre o que fazer ou como enfrentar esta situação. Penso que o primeiro passo em qualquer decisão é estar informado e seguro. Neste documento, você pode se aprofundar nas fontes usadas.

O que qualquer bebê precisa no primeiro ano de vida é ter o adulto que cumpre o rol materno disponível e responsivo às suas necessidades. Esta é a sua etapa de exterogestação em que precisa de abrigo, alimento sob demanda, abraços e mimos, muitas trocas de olhares, contato pele a pele, conversa focada e movimento livre.

Como mãe, recomendo que você busque ajuda e redes de apoio. Mães, ou quem está cumprindo o rol materno, não podem ficar sozinhas. Grupos de criação ou amamentação nesta fase geralmente desempenham papéis de apoio amoroso que às vezes são difíceis de obter do entorno imediato que talvez não esteja experimentando da mesma forma o turbilhão de emoções que é o puerpério.

Como conclusão

Esta é uma breve síntese de algumas das razões pelas quais bebês e crianças pequenas não devem ser expostos a telas. Mesmo após os dois anos de idade, é importante expô-los o menor tempo possível, adquirindo conteúdo muito lento (quase inexistente na oferta de conteúdo infantil catalogado).

Por outro lado, é importante realizar uma “desintoxicação digital” para qualquer criança que tenha usado telas fora das recomendações acima mencionadas. Consiste em zero telas por pelo menos quatro semanas.

Por jogos mais lentos e compartilhados e menos telas. Eu escolho encerrar com a frase que encerra a conversa TEDx do Dr. Dimitri Christakis “Se mudarmos o início da história, mudaremos a história”.

[Leia mais em: É Possível Criar Filhos Sem Telas na Era Digital?]


Por Ana Fischer, mãe da Alma, comunicadora social, e especialista em criar e amar em tempo de telas.

Você pode acompanhar o seu trabalho no perfil do Instagram @crianzacibersegura.

Tradução de Gabrielle Gimenez @gabicbs

Referências:

[1] Christakis, Dimitri  en Medios y Niños en TEDxRainier (Transcripción) https://singjupost.com/dimitri-christakis-on-media-and-children-at-tedxrainier-transcript/?singlepage=1     Video Charla TEDx https://youtu.be/BoT7qH_uVNo

[2] Alter, Adam (2018) Irresistible: ¿Quién nos ha convertido en yonquis tecnológicos” (Spanish Edition). Ed. Paidós.

[3] Christakis, Dimitri, Op. Cit.

[4] Íbidem

[5] Christakis, Dimitri entrevista https://www.cbsnews.com/news/groundbreaking-study-examines-effects-of-screen-time-on-kids-60-minutes/?ftag=CNM-00-10aab7d&linkId=60784947

[6]  L´Ecuyer, Catherine (2012) Educar en el Asombro, España, Ed. Plataforma Editorial

[7]  Fuente https://wChristakis, Dimitri entrevista https://www.cbsnews.com/news/groundbreaking-study-examines-effects-of-screen-time-on-kids-60-minutes/?ftag=CNM-00-10aab7d&linkId=60784947ww.nature.com/articles/srep46104 

[8] World Health Organization. (‎2019)‎. Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. World Health Organization. https://apps.who.int/iris/handle/10665/311664. Licencia: CC BY-NC-SA 3.0 IGO

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