O poder do colo refletido no DNA do bebê

Foto: Gabrielle Gimenez

É bastante comum, quando nos tornamos pais, escutarmos conselhos sobre como deveríamos cuidar dos nossos filhos. Muitos deles insinuam que se o bebê passar tempo demais no colo, ficará mal acostumado. O bom e velho “colo demais estraga”. Mas o que será que a ciência tem a dizer sobre isso?

O que a cência tem descoberto sobre o colo

A quantidade de contato íntimo e reconfortante entre os bebês e seus cuidadores pode afetar as crianças em nível molecular, um efeito detectável quatro anos depois, de acordo com uma nova pesquisa da Universidade da Colúmbia Britânica (UBC) e do Instituto de Pesquisa do Hospital Infantil da Colúmbia Britânica (BC Children’s Hospital).

O estudo mostrou que as crianças que sofreram mais angústia quando bebês e receberam menos contato físico tinham um perfil molecular em suas células que estava subdesenvolvido para a sua idade – apontando para a possibilidade de que elas estavam atrasadas biologicamente.

Embora as implicações para o desenvolvimento infantil e para a saúde do adulto ainda não tenham sido compreendidas, essa descoberta se baseia em trabalhos semelhantes em roedores. Este é o primeiro estudo a mostrar em humanos que o simples ato de tocar, no início da vida, tem conseqüências profundamente enraizadas e potencialmente duradouras no epigenoma – alterações bioquímicas que afetam a expressão gênica.

“Em crianças, achamos que um envelhecimento epigenético mais lento poderia refletir um progresso menos favorável no desenvolvimento”, disse Michael Kobor, professor do Departamento de Genética Médica que lidera o programa “Começo Saudável” no Instituto de Pesquisa do Hospital Infantil da Colúmbia Britânica.

Detalhes sobre o estudo

O estudo, publicado em 22 de novembro de 2017 em Development and Psychopathology¹, envolveu 94 crianças saudáveis ​​da Colúmbia Britânica. Pesquisadores da UBC e BC Children’s Hospital pediram aos pais de bebês de cinco semanas para manter um diário do comportamento de seus bebês (como sono, agitação, choro ou alimentação), bem como a duração do cuidado que envolvia o contato corporal. Quando as crianças tinham cerca de 4 anos e meio, foram tomadas amostras de DNA.

A equipe examinou uma modificação bioquímica chamada metilação do DNA, na qual algumas partes do cromossomo são marcadas com pequenas moléculas de carbono e hidrogênio. Essas moléculas agem como “interruptores de luz” que ajudam a controlar o quão ativo cada gene é e, portanto, afetam o funcionamento das células.

A extensão da metilação, e onde no DNA isso acontece especificamente, pode ser influenciada por condições externas, especialmente na infância. Esses padrões epigenéticos também mudam de formas previsíveis à medida que envelhecemos.

Os cientistas descobriram diferenças de metilação consistentes entre crianças de alto contato e de baixo contato em cinco locais específicos do DNA. Dois desses sites se enquadram nos genes: um desempenha um papel no sistema imunológico e o outro está envolvido no metabolismo. No entanto, os efeitos posteriores dessas mudanças epigenéticas no desenvolvimento infantil e na saúde ainda não são conhecidos.

Possíveis implicações da falta de contato

As crianças que experimentaram maior sofrimento e receberam relativamente pouco contato tiveram uma “idade epigenética” menor que a esperada, dada a idade real. Uma discrepância entre a idade epigenética e a idade cronológica tem sido associada a problemas de saúde em alguns estudos recentes.

“Planejamos acompanhar se a ‘imaturidade biológica’ que vemos nessas crianças tem amplas implicações para sua saúde, especialmente seu desenvolvimento psicológico”, diz a autora principal Sarah Moore, uma bolsista de pós-doutorado. “Se pesquisas adicionais confirmarem este achado inicial, ressaltará a importância de fornecer contato físico, especialmente para crianças em sofrimento”.

Diante dessas descobertas fica ainda mais evidente a importância do colo para os bebês, não apenas do ponto de vista emocional, mas também físico. Dê colo sem culpa. No fim das contas a gente descobre que colo não estraga, mas a falta dele, sim.

[Leia mais em: A Separação nos Pequenos Seres Humanos Dói Tanto Quanto uma Dor Física e Os Segundos Nove Meses: A Exterogestação e a Necessidade de Ser Carregado]

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Tradução de Gabrielle Gimenez @gabicbs

Fonte: Site de notícias da Faculdade de Medicina da Universidade da Colúmbia Britânica. Para ler o texto original em inglês, clique aqui.

¹ Sarah R. Moore, Lisa M. McEwen, Jill Quirt, Alex Morin, Sarah M. Mah, Ronald G. Barr, W. Thomas Boyce, Michael S. Kobor. Epigenetic correlates of neonatal contact in humansDevelopment and Psychopathology, 2017; 29 (05): 1517 DOI: 10.1017/S0954579417001213.

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