Preciso esperar o peito encher para voltar a oferecê-lo ao bebê?

Preciso esperar o peito encher para voltar a oferecê-lo ao bebê?
Foto: Gabrielle Gimenez

Esta é uma dúvida bastante frequente entre as mães de primeira viagem. E, infelizmente, muitos profissionais desatualizados continuam perpetuando este tipo de recomendação nos consultórios.

É importante entender que o volume de leite produzido pela mãe muda com o passar do tempo, pois vai se adequando às necessidades do bebê. Ao redor do terceiro mês (pode ser antes ou depois) a produção se regula e os seios já não ficam tão cheios e duros como na apojadura. Algumas mulheres se assustam e pensam que seu leite está secando, visto que também coincide com períodos de “crise” no desenvolvimento infantil, que levam a um comportamento de irritação ou estranheza do bebê em relação ao peito.

Para que essa regulação ocorra de modo adequado, a amamentação deve acontecer em livre demanda, sempre que o bebê solicitar ou a mãe achar necessário (a chamada livre oferta, especialmente no início com bebês mais sonolentos). Ou seja, o estabelecimento de horários rígidos para as mamadas, uso de chupeta, treinamentos de sono para supressão das mamadas noturnas, etc., não são recomendados, porque eles enviam uma mensagem incorreta ao organismo da mãe, que provoca a redução da sua produção total diária de leite, deixando-a aquém das necessidades do bebê.

O corpo tem a capacidade de produzir leite o tempo todo, mas é a quantidade de leite “estacionada” no seio, por assim dizer, quem determina a velocidade com que esse leite será produzido. Se os seios não são constantemente esvaziados (sucção do bebê e/ou extração mecânica) o Fator Inibidor da Lactação (ou FIL, uma proteína produzida pelas células produtoras de leite) manda uma mensagem para que o corpo desacelere a produção. O peito cheio também prejudica a ação dos receptores de prolactina (hormônio responsável pela produção de leite) presentes nas células produtoras dos alvéolos. E diminui a quantidade de gordura no leite, tornando mais difícil sua extração. (Leia mais em: O que Significa Capacidade de Armazenamento do Seio? e também: Leite Anterior e Leite Posterior Realmente Existem?).

Por isso não procede a recomendação de esperar o peito encher para só então voltar a oferecê-lo. Esta prática, como explicado acima, provoca a queda da produção materna. Além disso, normalmente está acompanhada da recomendação de oferta de fórmula em mamadeira entre uma mamada e outra e de chupeta para realização da sucção não-nutritiva, na tentativa de promover o espaçamento entre as mamadas, o que termina provocando o efeito bola de neve na amamentação, cujo desfecho mais provável é o desmame precoce (combo: confusão de bicos + pouco leite = rejeição do peito pelo bebê).

Também por esta razão não se recomenda a realização de qualquer tipo de treinamento ou interferência no sono do bebê, especialmente se realizados antes dos 6 meses (período em que se recomenda o aleitamento materno exclusivo), pois isto está associado a um maior índice de fracasso na amamentação. Dentre outros fatores, é durante a noite que ocorre o pico da prolactina, e a supressão das mamadas noturnas impactará na produção total diária de leite (Leia mais em: 9 Razões para Manter a Amamentação Noturna). Normalmente o passo seguinte a um desmame noturno precoce (e forçado) é o desmame total, por todos os fatores já explicados anteriormente.


Por Gabrielle Gimenez @gabicbs

Sobre o uso de chupeta e a interrupção do aleitamento materno exclusivo:  Buccini, G. d. S., Pérez‐Escamilla, R., Paulino, L. M., Araújo, C. L., and Venancio, S. I. (2016),. Pacifier use and interruption of exclusive breastfeeding: Systematic review and meta‐analysis, Maternal & Child Nutrition, doi: 10.1111/mcn.12384

Sobre métodos de treinamento de sono aplicados nos primeiros 6 meses e aumento da incidência de desmame precoce total: Douglas PS, Hill PS.  Behavioral sleep interventions in the first six months of life do not improve outcomes for mothers or infants: a systematic review.  J Dev Behav Pediatr 2013; 34: 497-507.

Texto originalmente publicado na minha conta do Instagram em 24 de dezembro de 2018 e ampliado nesta edição.

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