A maternidade e o conflito de gerações

A maternidade e o conflito de gerações
Foto: Elisa Elsie – Duas Estúdio

Cada geração de mães fez o melhor que podia com a informação que tinha disponível em sua época. O fato de que hoje tenhamos acesso praticamente ilimitado a todo tipo de informação e evidências científicas não nos faz melhores que a geração que nos precedeu, mas certamente aumenta a nossa responsabilidade por fazer escolhas conscientes.

Alguém comentou que as mães de hoje sofrem mais por quererem fazer tudo certinho. Que antes se tinham mais filhos, a mulher dava conta de tudo e ainda sobrava tempo pra passear com as crias e ser feliz. No meu ponto de vista essa maneira de encarar a problemática atual é injusta. Porque a diferença entre as gerações de nossas mães e avós e a nossa não se resume apenas ao acesso à informação. A sociedade mudou, o papel da mulher nela mudou, o conceito de criar em tribo, num contexto de família mais amplo e vizinhança mais próxima e segura mudou. Somos uma geração de mães, no geral, bastante solitárias, com pouco ou nenhum apoio e vida social resumida. Existem pequenos oásis de acolhimento e amizade em grupos virtuais, alguns com desdobramentos presenciais. Para muitas de nós é tudo o que temos.

As que contam com a ajuda das mulheres das gerações anteriores da família podem vivenciá-la como suporte ou tormento. Tudo dependerá de como está construída a relação. De ambas as partes é preciso que exista respeito.

Do nosso lado precisamos entender o contexto da época, perdoar os possíveis erros e ir “doutrinando-as” (especialmente se essas mulheres forem conformar nossa rede de apoio imediato) sobre nossas escolhas, compartilhando informação a que elas talvez não tiveram acesso e todavia desconheçam. Humildade para reconhecer que precisamos de ajuda e clareza para pedi-la de modo que as pessoas saibam exatamente o que fazer para o nosso bem.

Do lado das mais experientes é fundamental entender que o momento é da recém-mãe, que ela é a protagonista. Que chegou a sua vez de errar, acertar, se perdoar e se reinventar. Suas escolhas devem ser respeitadas sempre. Como uma amiga recentemente escreveu, acolher a escolha não significa concordar com ela, mas respeitar quem a faz. E certamente haverá uma boa razão para isso. É preciso que reconheçam como as coisas mudaram desde que foram mães, como a ciência avançou e que rever conceitos e ter um pouco de autocrítica faz bem a todos. As recém-mães precisam desse voto de confiança.

Sei que fui privilegiada por ter tido o apoio incondicional da minha mãe nos meus dois pós-partos. Ela repetiu comigo o mesmo que minha vó tinha feito por ela. Seu cuidado com meu bem-estar foi fundamental. Espero algum dia poder fazer o mesmo pela minha filha. A mãe da mãe (e, porque não, a mãe do pai) pode ter um papel crucial e extremamente benéfico no puerpério. Abençoadas as que podem contar com essas avós maravilhosas, que enchem de luz, amor e sabor a nossa vida, e deixam um vazio enorme quando se vão.

Texto de Gabrielle Gimenez @gabicbs

[Na foto, minha avó, minha mãe e eu, no dia do meu casamento. Mesmo com histórias e trajetórias diferentes na maternidade e na amamentação, me senti acolhida e respeitada nas minhas escolhas. Sei que elas, com erros e acertos, fizeram o melhor que podiam. Eu as honro por isso e levo o melhor delas comigo, que certamente passarei adiante para as futuras gerações da nossa família com meus próprios erros e acertos.]

Texto originalmente publicado nas minhas contas de Facebook e Instagram em 07 de maio de 2018.

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