9 Razões para manter a amamentação noturna

Amamentação noturna e sono infantil
Foto: Elisa Elsie – Duas Estúdio

Por quanto tempo preciso amamentar durante a noite? Essa é uma das perguntas que mais ouvi como monitora de amamentação na Liga de La Leche. E é que a amamentação noturna, em uma sociedade que normaliza e “normativiza” o sono solitário de bebês e crianças, e na qual se supõe que a grande maioria das mães retornará à sua vida normal laboral a partir do quarto mês da vida de seu filho, manter a amamentação noturna, nem que sejam nos primeiros 6 meses de vida da criatura, é um esforço de maratona que custa à mãe muitas horas (muito necessárias) de sono.

E o que posso dizer a uma mãe que não dorme em contato com seu filho e que no dia seguinte precisará acordar às 7 da manhã para ficar 8 horas fora no seu trabalho e quer desmamar pelo menos durante a noite? Ou quem dorme com seu filho, mas apesar de tudo, a amamentação impede que ela durma tudo o que precisa para funcionar de maneira saudável durante o dia?

É realmente uma questão controversa e, quando uma mãe está determinada a fazer o desmame noturno, a última coisa que farei é tentar convencê-la do contrário, porque deve ter seus motivos. Mas a verdade é que, na maioria dos casos, o desmame noturno será difícil e custará um esforço considerável para a mãe e o filho, especialmente se for feito em alguns dias, caso em que é praticamente impossível evitar lágrimas para o bebê.

Porém, em muitos casos, informações precisas e neutras sobre o que significa a amamentação noturna são suficientes para a mãe repensar sua decisão, encontrando maneiras mais confortáveis ​​e relaxadas de continuar com ela.

A seguir, falarei sobre alguns dos pontos chave da amamentação noturna que podem ajudar as mães a entenderem o porquê do comportamento do bebê e a encontrarem estratégias para que também possam dormir bem, apesar de praticá-la.

Razões para manter a amamentação noturna

1. Com o recém-nascido, a amamentação noturna é inquestionável: o estômago de um recém-nascido é minúsculo, por isso é preenchido com muito pouco volume, o que faz com que sejam frequentes as mamadas necessárias para garantir alimentação suficiente. Existem estimativas que sugerem que o recém-nascido humano deve se alimentar de hora em hora, devido ao pequeno tamanho do estômago.

2. A composição do leite materno humano, que difere consideravelmente da do leite em pó, bem como a de outros mamíferos cujos intervalos entre as mamadas são muito mais longos. Nosso leite é pobre em gorduras e proteínas, além de rico em carboidratos, principalmente lactose. Isso faz com que os humanos precisem de curtos intervalos de tempo entre as mamadas, de não mais que 2-4 horas, no início de nossa vida. Além disso, contém proteínas com efeito antimicrobiano e atividade probiótica, que promovem o desenvolvimento de uma flora intestinal saudável, que por sua vez facilita e acelera a digestão. Todos juntos resultam na necessidade de mamadas frequentes para garantir a saciedade e o correto desenvolvimento do bebê humano.

3. A estimulação noturna do seio materno ajuda a manter níveis adequados de produção de leite. O volume de leite produzido pela mãe é totalmente regulado pela demanda do bebê, pois é a estimulação da mama durante as mamadas que aumenta os níveis do hormônio responsável pela produção de leite: a prolactina. A quantidade de prolactina produzida e a frequência com que ocorre no período seguinte ao nascimento estão associadas à lactogênese II precoce e ao aumento da produção de leite. Especialmente no período neonatal, a estimulação frequente das mamas garantirá a produção ideal de leite. As mamadas noturnas são, de fato, aquelas que produzem um aumento maior da prolactina, por isso são especialmente importantes para o estabelecimento e manutenção da amamentação. Níveis iniciais de prolactina alta também estão relacionados à amamentação prolongada. A manutenção da amamentação também está associada ao desenvolvimento de receptores de prolactina no tecido mamário, que também é o resultado de uma alta frequência de mamadas nos primeiros dias após o nascimento.

4. Embora a crença popular seja o oposto, a verdade é que as mães que amamentam e compartilham cama com seus filhos não dormem pior do que aquelas que não amamentam e não compartilham cama com seus filhos. Existem vários estudos que mostram que a amamentação promove um sono mais profundo e repousante, tanto no bebê quanto na mãe, e, apesar de ocorrerem mais despertares, estes são mais curtos e, por fim, não dormem menos. Não há dúvida de que aqui a cama compartilhada é um fator fundamental para o conforto e o bom funcionamento da amamentação noturna, pois permite que a mãe atenda à demanda de seu bebê praticamente sem se mexer nem acordar completamente.

5. Certos componentes do leite materno – como melatonina, aminoácidos como triptofano ou metionina e certos nucleotídeos com possível efeito hipnótico – seguem um ritmo circadiano, e acredita-se que eles tenham um papel importante no desenvolvimento e na evolução do relógio interno do bebê e sua capacidade de se adaptar ao ritmo circadiano dos adultos.

6. Parece estar demonstrado que a amamentação previne problemas respiratórios do sono (do simples ronco à apneia obstrutiva do sono).

7. Está demonstrado que a amamentação evita a síndrome da morte súbita infantil, além de ser um fator fundamental para garantir a segurança de bebês menores durante a cama compartilhada, uma vez que a mãe que amamenta adota instintivamente uma posição segura para o seu bebê (Figura 1).

8. Tanto a amamentação noturna quanto a cama compartilhada têm implicações profundas na arquitetura do sono da mãe e do bebê. Como comentamos, a amamentação noturna aumenta o sono profundo de ondas lentas, enquanto a cama compartilhada aumenta o sono REM, fase do sono em que se observou que as mamadas ocorrem nos experimentos com ratos de laboratório e que tem um papel fundamental no processamento da memória emocional e no desenvolvimento de habilidades cognitivas e no sistema de resposta emocional, particularmente no desenvolvimento da resposta emocional à mãe. É evidente que ambos os comportamentos causam um delicado equilíbrio na arquitetura do sono do bebê e de sua mãe, cujas implicações no desenvolvimento neurológico saudável do bebê ainda são desconhecidas.

9. Não há um único estudo que possa demonstrar que a amamentação noturna pode não ser benéfica a partir de um determinado momento. Enquanto mãe e filho se sintam à vontade com esse comportamento, do ponto de vista absolutamente científico, não há nenhuma contra-indicação.

Posição de proteção adotada pela nutriz em relação ao bebê durante a cama compartilhada.
Figura 1: Posição de proteção adotada pela nutriz em relação ao bebê durante a cama compartilhada. (H. L. Ball, “Parent-Infant Bed-Sharing Behavior. Effects of Feeding Type and Presence of Father,” Human Nature, vol. 17, no. 3, pp. 301-318, 2006.)

Medidas que facilitam a amamentação noturna

  • Faça cama compartilhada com seu filho. Quanto mais próxima você estiver, menos terá que se mover e acordar a ambos para a mamada, o que implicará em menos tempo acordados e um retorno ao sono mais fácil. É claro que, especialmente com bebês menores, é essencial praticar a cama compartilhada de forma segura (veja as recomendações abaixo) e, se você não tem certeza de que pode respeitar todas as condições, tem a opção de um berço acoplado à cama que não coloque barreiras físicas entre você e seu bebê, mas forneça uma área segura para ele. Também é essencial que, se você decidir compartilhar cama, prepare uma superfície grande o suficiente para que todos possam dormir confortavelmente. As camas de casal convencionais geralmente ficam pequenas quando compartilhadas com bebês que não atingem meio metro de comprimento, mas são capazes de se colocar em todas as posições possíveis em uma única noite.
  • Use roupas confortáveis ​​e fáceis de abrir para dar de mamar. Se a temperatura ambiente permitir, você pode até pensar em dormir sem a parte de cima do pijama, oferecendo assim ao seu bebê acesso sem barreiras ao peito. Isso se traduzirá, especialmente quando o bebê for mais velho e puder se mover sozinho, em mamadas que você nem se dará conta, pois ele foi capaz de prender-se sozinho ao seu peito, sem te acordar.
  • Se você se sentir confortável com a amamentação noturna e você e seu bebê descansarem o suficiente, não tenha a menor dúvida: não há prazo de vencimento. A data de término deve ser colocada por vocês dois e não depende de mais ninguém. Nem da vizinha, nem do pediatra. Portanto, não sinta arrependimento ou dúvida diante de comentários sem fundamento que você possa receber e que ataquem sua decisão. Com o tempo, seu filho inevitavelmente desmamará e, então, (digo por experiência própria), você até sentirá falta dessas mamadas noturnas, envolvidas pela confortável escuridão da noite e submersas no banho hormonal de prolactina e ocitocina que amamentação proporciona.

Recomendações para a cama compartilhada segura

✅ Os bebês devem dormir em superfícies firmes, limpas, na ausência de fumaça, sem travesseiro nem bichinhos de pelúcia que possam asfixiá-lo.

✅ Sempre se deve colocar o bebê deitado de barriga para cima.

✅ Não devem existir espaços entre o colchão e a grade de segurança ou a parede, onde o bebê possa cair e ficar preso.

✅ Os bebês não devem dormir jamais em sofás ou poltronas, nem no colo de algum adulto sonolento.

✅ Nunca se deve cobrir a cabeça do bebê com nada que possa dificultar sua respiração.

✅ Evite agasalhar o bebê de forma exagerada e ter o quarto muito quente.

✅ É preferível que o bebê durma a princípio entre a parede, ou o berço acoplado ou grade de segurança agregada ao colchão da cama de casal, e a mãe, em lugar de entre o pai e a mãe. Passadas as primeiras semanas, o pai já estará mais sensível à presença do bebê e este poderá dormir entre os dois.

✅ É especialmente recomendável que a cama compartilhada seja praticada quando a mãe amamenta seu bebê porque foi demonstrado que as mães que amamentam não dão as costas ao seu bebê na cama e se colocam, de maneira instintiva, em uma posição segura para o seu filho. O mesmo não ocorre com as mães que não amamentam.

✅ As mães e pais que compartilham cama não devem ser obesos, fumantes, nem devem fazer consumo de álcool ou qualquer outra droga (ou medicamento) que comprometa o estado de consciência ou a sua capacidade de reação.

✅ Os bebês menores de um ano não deveriam compartilhar cama com outros irmãos pequenos.

✅ Evitar o uso de pijamas ou camisolas com laços ou tiras longas que possam cobrir o rosto do bebê ou enrolar-se ao redor do seu pescoço. Cordões de cortinas ou persianas muito próximas à cama podem ser igualmente perigosos. Se algum dos pais tem o cabelo muito longo, é melhor tê-lo amarrado em um coque.

Por María Berrozpe, PhD, autora do blog El debate científico sobre la Realidad del sueño infantil e do livro Dulces Sueños, Como lograr que tus hijos duerman tranquilos.

Tradução de Gabrielle Gimenez @gabicbs

Para ler a publicação original em espanhol, clique aqui.

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