A realidade por trás do “eu não tive leite”

A verdade por trás do "eu não tive leite"
Foto: Elisa Elsie – Duas Estúdio

“Eu não tive leite” está para a amamentação assim como “eu não tive dilatação” está para o parto. A frequência com que escutamos estas sentenças, longe de ser uma constatação de algum problema genético próprio do nosso tempo, revela o quão longe estamos como mulheres do auto-conhecimento e da consciência do poder que possuímos.

A indústria à força de muita propaganda e patrocínio, desinforma e aliena para seu próprio benefício. Conseguiu ao longo dos anos converter o natural em raro ou pouco comum, e o artificial em regra.

O sistema desrespeita e atropela, impondo seu ritmo e suas regras, causando danos ao invés do cuidado esperado. Desorienta e induz ao erro no lugar de instruir.

A sociedade se distanciou tanto do natural que ele deixou de ser cultural, o fisiológico caiu no esquecimento, virou lenda. Ela aceita o modelo imposto com resignação, omite apoio e rotula de modo depreciativo quem decide questionar e remar contra a corrente.

Estamos falando de mentiras, de sonhos desfeitos, de má orientação, de culpa, de perpetuação de mitos, de falta de apoio, de ciclos que não são quebrados, de uma herança que não deveria existir.

Transcrevo a seguir a tradução que fiz de um trecho da entrevista da médica de família e IBCLC Carmela Kika Baeza ao portal La Razón, que nos traz alguns outros pontos interessantes para considerar sobre este tema.

🔹Como você explica que existam tantas mulheres no Ocidente que dizem que não têm leite ou que seu leite não é suficiente? Houve uma mutação genética nas mulheres ocidentais?

-Lembre-se, a premissa é que qualquer mulher é biologicamente capaz de amamentar, exceto por doença ou malformação. No entanto, em nossa sociedade, a primeira causa de abandono da amamentação é a sensação de não ter leite suficiente. E eu enfatizo: a sensação de não ter leite suficiente. Geralmente, nem é verdade. Em estudos com mulheres grávidas, já podemos ver que mais da metade teme não conseguir produzir o suficiente. É uma tragédia!

🔹De onde vem essa dificuldade, essa falta de auto-estima das mulheres em relação à sua capacidade de produzir leite em abundância?

-Ela tem três fatores:

O PRIMEIRO, a separação entre mães e seus bebês. Quando um bebê nasce e passa os primeiros dias colado à mãe em íntimo contato pele a pele, o que ele faz é programar o cérebro de sua mãe, treinando-a para cuidar dele. A natureza não pode correr o risco de que um bebê nasça de uma mãe que não pode cuidar dele, ou que não leu livros sobre maternidade… por isso é que esse bebê programa sua mãe no período crítico do pós-parto. O bebê, através da sucção, determina a quantidade de leite que sua mãe irá produzir. Através de seu olhar e suas carícias, ele faz com que sua mãe se relacione com ele, além disso, ele consegue, através da ativação de neuro-hormônios no cérebro de sua mãe, que ela tenha mais tolerância ao tédio e à desordem. Ele faz com que sua mãe entenda seus tipos de choro, para interpretar seu comportamento. Em suma, a mãe está preparada para poder alimentá-lo, entender suas necessidades e respondê-las efetivamente.

Isso não significa que uma mãe que não tem esse contato pele a pele com seu bebê nos primeiros dias não vai amá-lo, ou não vai ser capaz de cuidar dele… o que acontece é que custa mais para entender o seu bebê, seu comportamento irá criar milhares de dúvidas nela (Chora por fome? Cólicas? Devo dar colo? Devo colocá-lo no peito de novo?), a parentalidade será mais cerebral do que visceral, embora o amor seja o mesmo.

O SEGUNDO fator é justamente essa ignorância em relação ao comportamento de um bebê amamentado. Muitas mulheres em nossa sociedade nunca viram um bebê de perto até que têm o seu próprio e, portanto, não sabem sobre comportamento infantil, exceto o que leram em revistas, o que geralmente é bastante idílico. Além disso, estamos muito acostumados a normalizar o comportamento de bebês alimentados com leite em pó, bebês que dormem profundamente por muitas horas. A fórmula é fabricada a partir de leite de vaca e as vacas são ruminantes. Seu leite é projetado para que o bezerro esteja muito saciado e fique deitado na grama, estando profundamente adormecido e imóvel (invisível aos predadores) enquanto a vaca vai pastar. No entanto, os seres humanos, com certeza, precisamos estar juntos com um adulto que nos proteja. Se um bebê se move para longe de sua mãe, ele está em grave perigo. É por isso que nosso leite é mais leve e requer mamadas frequentes, impedindo que a criança se afaste. Além disso, nossas crianças aprendem comportamento social por imitação e, portanto, precisam estar com adultos o máximo possível. A amamentação frequente também alcança esse objetivo.

Se uma mãe não sabe disso, e se não tiver sido programada pelo seu bebê (ela teve muitas visitas no hospital, e o bebê ficou passando de colo em colo e não em contacto pele a pele com ela) por isso, se o bebê pede pra mamar a cada hora e meia, o que é normal nos primeiros dias, a primeira coisa que ela pensa é que “ele está com fome. Eu não tenho leite suficiente”.

É por isso que é importante que as mães e os pais conheçam os sinais OBJETIVOS de que seu bebê está comendo o suficiente. E que aprendam a reconhecer o comportamento normal de um bebê nas primeiras semanas: mamadas frequentes, dormem muito bem no seio mas muito pouco se o separarmos da mãe (por exemplo, no berço); à tarde, costumam pedir mais peito do que no período da manhã; eles querem peito “por tudo”. Se tudo isso acontece, mas a mãe está sem dor e o bebê está ganhando peso, com certeza há leite suficiente.

O TERCEIRO fator é a iatrogenia, que é o termo técnico para danos à saúde devido à ação médica. Infelizmente, a amamentação não é devidamente estudada nas faculdades de medicina ou enfermagem. Isso leva a que os profissionais que não se capacitam depois por conta própria não tenham muito conhecimento nessa área. Por essa razão, as mães muitas vezes recebem conselhos inadequados de profissionais que põem em perigo ou acabam de vez com a amamentação.

A informação precisa ser passada adiante. Leis precisam ser propostas. Paradigmas precisam ser derrubados. Como mulheres precisamos recuperar nosso lugar de soberania, precisamos estar fundamentadas e bem resolvidas com as nossas escolhas. Só assim poderemos reassumir o controle de nossa maternidade, de maneira consciente e leve. Sabendo que estaremos sempre de mãos dadas à imperfeição própria ser humanas. Mas sem jamais desistir de lutar e tentar ser as melhores mães que podemos chegar a ser.

Por Gabrielle Gimenez @gabicbs

2 comments

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  1. Glaucia M. A. R. Moreira

    Você foi e é minha inspiração para maternar! Hoje minha bebê está prestes a fazer um ano! E escutei muito sobre complemento, desmame, em contra partida, foi você que me ajudou a não me sentir sozinha na minha luta em amamentar! Amamentar era meu sonho, pois sempre escutei que as mulheres da minha família não conseguem amamentar, por isso corri atrás de muita informação. Sou muito grata a você! Infelizmente não tive a mesa oportunidade de informação sobre o parto, fiquei 20h em trabalho de parto, pois queria muito o parto normal, mas por falta de profissionais habilitados e informações da minha parte (porque achei que simplesmente era esperar a dilatação) fiquei com 7 dedos de dilatação, quando minha neném engoliu mecônio (também não sei se essa informação procede, ou é o que nos passam), mas tudo pra não prejudicar minha bebê, parti para a cesária. No hospital da minha cidade, trouxeram ela pra mim em questão de uma hora (o maior desejo do parto normal era ter ela sempre perto de mim). Consegui amamentar desde o primeiro instante 🙏🏼. Todos disseram que eu voltei muito rápido da sala de operação, mas eu sei graças, pois queria estar perto da minha bebê.
    Pretendo ter mais uma gestação. E sim, gostaria de saber muuuuiito mais sobre o parto. Obrigada pelo seu apoio, você não tem ideia de quanto se faz presente, na nossa carência materna.

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