Fezes esverdeadas significam baixa ingestão de leite posterior?

Leite gorduroso. Teor de gordura no leite. Leite anterior. Leite posterior. Lactase. Fezes esverdeadas.
Foto: Elisa Elsie – Duas Estúdio

Continuando a discussão sobre leite anterior e leite posterior (se não leu, volte dois posts atrás). Muitas vezes se diz que quando os bebês amamentados apresentam fezes esverdeadas é porque não estão recebendo leite posterior suficiente. Quão precisa é esta afirmação?

Primeiro, vamos mudar a questão. Como o “leite posterior” não é um tipo distinto de leite, vamos perguntar “bebês com fezes esverdeadas estão recebendo suficiente gordura?”

A resposta depende não apenas da gordura que o bebê está recebendo, mas da concentração de lactose, da duração da mamada e da velocidade com que o estômago se esvazia. A duração da mamada é importante porque quanto mais longa mais rápido o estômago esvazia. A velocidade de esvaziamento estomacal, ou gástrica, influencia a forma como o leite é digerido e enviado para o intestino delgado. Isso geralmente é feito a um ritmo controlado, mas diferentes componentes do leite podem alterar a velocidade do esvaziamento gástrico.

A lactose faz com que o estômago esvazie mais rápido, mas apenas se o volume da mamada for grande. Baixas quantidades de lactose retardam o esvaziamento do estômago.[1] A gordura no leite materno libera a colecistocinina (CCK), que por sua vez diminui o esvaziamento gástrico.[2] O CCK é um hormônio da saciedade e é provavelmente responsável pelo “coma do leite”.[3,4]

Vamos juntar tudo isso em um cenário. Se temos uma mamada de alto volume de uma mãe que tem muito leite, obtemos lactose mas não muita gordura. Isso significa que temos o esvaziamento rápido do estômago. O intestino delgado pode ter um problema com toda a lactose que está sendo entregue rapidamente. Se essa lactose não é toda quebrada em suas partes componentes pela enzima projetada para fazer isso, a lactase, muita lactose entrará no intestino grosso onde lactobacilos e bifidobactérias podem quebrá-la produzindo ácido láctico e hidrogênio. Usamos “testes de hidrogênio no ar expirado” para verificar a intolerância à lactose causada pela falta da enzima lactase.

No entanto, no nosso caso, a deficiência de lactase foi resultado da velocidade com que o alimento foi para o intestino delgado, onde podemos não ter tido lactase suficiente para quebrar toda a lactose liberada rapidamente.

Leite gorduroso. Teor de gordura no leite. Leite anterior. Leite posterior. Lactase. Fezes esverdeadas.
Imagem: Evo-Ed Project at Michigan State University

Portanto, não é uma verdadeira intolerância. O fenômeno é freqüentemente chamado de “sobrecarga de lactose”. A produção rápida de hidrogênio, um gás, estica o cólon, fazendo com que o bebê tenha gases e dor. A água vai para o cólon por causa da alta carga de açúcar que, por sua vez, causa fezes líquidas, e o ácido láctico freqüentemente causa assaduras.[5,6] Como a alimentação não tem muita gordura, não há saciedade ou coma de leite. O bebê pode estar muito irritado e pode sempre parecer com fome.[4,5]

Nosso cenário não é muito comum. Isso acontece apenas em crianças recebendo muito leite muito rapidamente, como em casos de hiperlactação com ou sem reflexo agressivo de ejeção de leite.

Assim, as fezes verdes não são o único sintoma de “não receber suficiente gordura”. Um bebê que não está recebendo suficiente gordura é ranço, gasoso, mostra poucos sinais de estar satisfeito e, provavelmente, tem assaduras, fezes verdes e líquidas. Esses bebês precisam ver alguém com conhecimento sobre amamentação. Outros bebês com fezes verdes só têm fezes verdes mesmo.

Texto da Dra. Jenny Peelen Thomas para sua página do Facebook Dr. Jen 4 Kids: Brestfeeding Medicine.

Para ler o texto da publicação original em inglês, clique aqui.

Tradução Gabrielle Gimenez @gabicbs

Descrição da imagem: Lactase (tingida de marrom) ao longo da borda em escova do intestino delgado. Do Projeto Evo-Ed da Michigan State University

Bibliografia:
1.  Gridneva Z, Kugananthan S, Hepworth AR, Tie WJ, Lai CT, Ward LC, et al. Effect of human milk appetite hormones, macronutrients, and infant characteristics on gastric emptying and breastfeeding patterns of term fully breastfed infants. Nutrients. 2016 Dec 28;9(1).

2.  Lal S, McLaughlin J, Barlow J, D’Amato M, Giacovelli G, Varro A, et al. Cholecystokinin pathways modulate sensations induced by gastric distension in humans. Am J Physiol Gastrointest Liver Physiol. 2004 Jul;287(1):G72–9.

3.  Uvnäs-Moberg K, Marchini G, Winberg J. Plasma cholecystokinin concentrations after breast feeding in healthy 4 day old infants. Arch Dis Child. 1993 Jan;68(1 Spec No):46–48.

4.  Huhtala V, Lehtonen L, Uvnäs-Moberg K, Korvenranta H. Low plasma cholecystokinin levels in colicky infants. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2003 Jul;37(1):42–46.

5.  Kanabar D, Randhawa M, Clayton P. Improvement of symptoms in infant colic following reduction of lactose load with lactase. J Hum Nutr Diet. 2001 Oct;14(5):359–363.

6.  Douglas PS. Diagnosing gastro-oesophageal reflux disease or lactose intolerance in babies who cry a lot in the first few months overlooks feeding problems. J Paediatr Child Health. 2013 Apr;49(4):E252–6.

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