Quando falta um pedaço de quem a gente ama

Quando falta um pedaço de quem a gente ama. Foto: Gabrielle Gimenez
Foto: Gabrielle Gimenez

Eu sabia que este dia chegaria. Eu só não tinha nenhuma pressa de que acontecesse. Talvez, sim, certa expectativa em saber como e quando se daria. Agora não lembro exatamente quanto tempo se passou. Talvez uns cinco anos. Estávamos sentados na beirada da cama enquanto eu cumpria com o ritual coletivo de cortar as unhas, como sempre faço. Mas desta vez, ele me perguntou sem rodeios:

– Mãe, por que eu não tenho essa unha? (Na verdade, ele se referia à ausência da falange distal do indiciador esquerdo.)

– Porque você sofreu um acidente quando era bebê.

Pelo que se seguiu da conversa, entendi que algum companheiro da escola havia percebido e comentado a respeito. Ele me olhou fazendo beicinho, como se estivesse revivendo o momento e prestes a chorar. Meu coração ficou apertado.

– E eu chorei muito, mamãe?

– Sim, você chorou. Mas agora não dói mais, não é mesmo?

– Não.

E como se de repente o assunto tivesse perdido o interesse, ele se foi feliz e continuou com o que estava fazendo.

Era verão e nos preparávamos para realizar uma mudança internacional. Vendemos tudo o que podíamos. Encaixotamos o que deu. Desocupamos a casa. Fomos morar com meus sogros até a data da viagem. Paralelamente estávamos chegando precocemente ao fim de muitos sonhos e projetos que não se realizaram, dentre eles a amamentação. Fernando havia começado a engatinhar no dia anterior. Chegou o momento de despachar a mudança. Eu o deixei sentadinho no chão da sala onde estávamos brincando enquanto fui buscar um outro brinquedo no quarto. Meus sogros e meu marido também estavam na casa e iam e vinham.  Na volta me deparei com alguma coisa que tinha ficado por fazer e atrasei o meu retorno à sala. Foi então que escutei um pranto devastador e saí correndo. Quando cheguei à cozinha meu sogro trazia o bebê sangrando nos braços e meu marido o que parecia ser um pedaço de dedo na mão. Perdi as forças nas pernas. Foi tudo tao rápido. Eles seguiram direto pro hospital, e eu fui me deitar na cama em posição fetal porque não conseguia estar de pé, não conseguia sequer chorar. Estava em choque.

Fiquei ali nem sei quanto tempo. Repetia baixinho o Salmo 23 que eu sempre recitava pro Nando antes de dormir. Eu não entendia nada do que estava acontecendo, mas eu queria crer que Alguém, sim. Meu sogro voltou depois para me buscar e na curta viagem de casa ao hospital eu lutava com muitos sentimentos desencontrados. Ao chegar, fui informada de que o pedaço que havia sido dilacerado pelo acidente não pôde ser recolocado pelo fato do dedo de um bebê de 9 meses ser muito diminuto. O cirurgião havia suturado e vendado a ferida aberta. Tenho pequenos flashes desse período em que esperamos que ele acordasse da sedação e depois um tempo prudente de observação até que nos liberaram pra regressar à casa. Nas mãos a receita de antibióticos e analgésicos para uma criança que nunca havia tomado remédios.

Esta noite, depois que ele finalmente dormiu, meu marido e eu nos sentamos no sofá na sala em penumbra e choramos, choramos e choramos. Não lembro se chegamos a conversar. Lembro apenas desse choro entalado que explodiu com fúria. E assim foram os dias que se seguiram. Atender a um bebê e brincar com ele como se nada tivesse acontecido. Fazer visitas diárias ao hospital para as primeiras trocas de curativo. Estar atenta aos horários das medicações de dia e de noite. Chorar para desafogar o peito toda vez que ele dormia.

O pensamento que mais me atormentava naquele momento era o fato de ter colocado no mundo um bebê perfeito e saudável ao qual agora lhe faltava um pedaço. Como seria a cicatrização? Quanto do dedo ele realmente havia perdido? Será que isso seria algum empecilho ao seu desenvolvimento? Será que ele conseguiria fazer tudo como uma criança normal? Eu tinha muitas perguntas sem resposta. Mas no meio de tanta dor, um pensamento me consolava e era a ele que eu me apegava com todas as minhas forças. Deus colocou no meu coração as seguintes palavras: “Este pedaço que falta não é uma deformidade, mas a marca permanente da minha graça na vida do Fernando e nas suas vidas”. Sim, poderia ter sido pior. Eu sabia disso. Mas a alegria de ainda tê-lo conosco, naquele instante não era o suficiente para apagar a dor que eu sentia, e no fundo, bem no fundo, um terrível sentimento de culpa.

Ah, a culpa! Na verdade esta é a razão de eu estar trazendo à tona essa experiência traumática depois de tantos anos (cinco anos e sete meses, para ser mais exata). Quero falar sobre culpa, e em especial a culpa materna. Porque seja que ela brote por cobrança própria ou sugestão de terceiros, ela machuca e consome da mesma maneira. O acidente me colocou frente a frente com a fragilidade humana e a imperfeição que lhe é inerente, assim como a sua total falta de controle sobre as circunstâncias da vida como um todo. Havíamos tido alguns episódios de queda, que já são o suficiente para nos fazer sentir miseráveis e as piores mães do mundo, mas nada que pudesse me preparar para o que eu estava vivendo. Perdi o chão. Felizmente tamanha dor e decepção em relação a minha maternidade tão imperfeita me levaram ao lugar certo: o colo do Pai. Foi ali que chorei minhas mágoas, que fiz muitas perguntas, de onde tirei forças para seguir em frente e o mais importante: me perdoei. Eu e Ele sabíamos o quanto eu me esforçava por ser uma boa mãe, dedicada e atenciosa, e o quanto eu gostaria de poder trocar de lugar com meu filho naquele momento. Dar um pedaço meu para recuperar o pedaço dele de volta.

Por fim nos mudamos, tentamos recomeçar a vida em outro lugar, depois vieram os gêmeos, e logo outra grande mudança. Veio a superação de antigos erros, a oportunidade de fazer muitas coisas de um jeito diferente, a aquisição de uma consciência sobre a maternidade que eu não tinha. Mas obviamente vieram novos erros, acidentes, situações inusitadas, outras visitas à emergência, frustrações por não alcançar certas metas. Porque a maternidade não neutraliza a humanidade. Continuo sendo imperfeita. Continuo errando mesmo querendo acertar. Continuo perdendo o controle das circunstâncias porque, por mais que eu me esforce, é impossível segurá-las nas mãos. E eu preciso aceitar, pedir perdão, me perdoar e tentar outra vez. Porque embora o ideal da maternidade seja inalcançável, continua sendo o meu alvo tanto nos dias bons quanto nos dias ruins. Porque o ideal não existe para que sejamos perfeitas, e sim para que sejamos melhores.

O pedaço que falta pode ser físico, ou mesmo invisível aos olhos. Pode ser fruto de um acidente inesperado, ou de um duro diagnóstico. Pode ter origem circunstancial, ou genética. Pode ser resultado de uma meta não alcançada, ou de uma decisão tomada de forma equivocada pela razão que seja. Talvez possa ser substituído, ou talvez seja uma ausência com a qual teremos de lidar pelo resto das nossas vidas. Cada vez que eu sento pra cortar as unhas das crianças, cada vez que eu tomo a sua mão na minha, cada vez que eu o vejo adaptar um movimento, eu sou lembrada desse pedaço que falta e do porquê ele não está ali. E embora, às vezes, ainda deixe escapar algum suspiro ou mesmo uma lágrima, eu sei que ele sabe o quanto eu o amo e o quanto eu continuo me esforçando para ser uma boa mãe, dedicada e atenciosa. Que a nossa imperfeição não nos empurre ao poço sem fundo da culpa, mas que nos impulsione a buscar refúgio nos braços da graça. Não podemos ter o controle sobre tudo. Por mais que nos esforcemos as coisas nem sempre vão sair como esperamos. Somente a graça nos dará a força e motivação necessárias para continuar apesar das falhas e nos dará uma nova chance de escolher e fazer o certo. Somente ela nos ajudará a não desistir de tentarmos a cada dia sermos as melhores mães que podemos chegar a ser.

Texto de Gabrielle Gimenez @gabicbs

[Na foto da foto, o Nando alguns dias depois do acidente.]

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