Confusão de bicos: mito ou verdade

Confusão de bicos: mito ou verdade. Foto: Gabrielle Gimenez
Foto: Gabrielle Gimenez

Quando meu filho mais velho nasceu, por puro desespero e falta de informação, eu fiz uso de bicos intermediários de silicone e chupeta no período de estabelecimento da amamentação. Nenhum bico se adaptou ao meu mamilo e foram logo descartados. A chupeta também não durou muito porque o meu filho não demonstrou interesse, e eu recuperei a sanidade há tempo. Mas por recomendação do pediatra comecei a complementar com leite artificial em mamadeira a partir do 4° mês. Ele chegou à conclusão de que meu filho não havia ganhado o peso adequado no mês antecedente (hoje eu sei que estávamos na crise dos 3 meses) [Leia mais em: O que é a Crise dos 3 Meses?] e a culpa (lógico!) recaiu no leite materno. A mamadeira era oferecida entre as mamadas, de forma alternada para, segundo ele, dar tempo do peito encher. [Leia mais em: Preciso Esperar o Peito Encher Para Voltar a Oferecê-lo ao Bebê?] Só não deveria ser oferecida por mim, para evitar confusão por parte do bebê. Se outro cuidador o fizesse eu não teria problemas. Os erros envolvidos neste diagnóstico e orientações são suficientes para escrever um texto à parte. A desatualização profissional e falta de manejo correto da amamentação por parte dos pediatras são um grande obstáculo a ser superado ainda hoje. Mas para encurtar a história, aos 9 meses meu bebê estava totalmente desmamado e eu confusa. Na época o processo se deu de maneira tão sutil que eu achava que tinha sido natural, que minha produção havia diminuído por estresse (estávamos vivendo um momento de muita pressão) e meu filho havia perdido o interesse pelo peito. Vida que segue. Só anos mais tarde, de posse da informação correta, que entendi o que realmente tinha acontecido. Que a mamadeira e o leite artificial haviam sido os grandes vilões na história.

A seguir compartilho o texto da Sociedade de Pediatria de São Paulo que explica de forma sucinta como a confusão de bicos ocorre.

Confusão de bicos é um termo comumente utilizado para explicar a dificuldade que algumas crianças têm de continuar o aleitamento materno após terem sido submetidas a algum tipo de bico artificial (estejam eles relacionados à sucção nutritiva ou não). Inicialmente, essa utilização pode gerar confusão quanto à forma de mamar da criança, dificultando a ordenha no seio materno, podendo levar ao desmame precoce.

É consenso entre os pesquisadores que a introdução dos bicos artificiais prejudica a continuidade do aleitamento materno. A introdução de chupetas paralelas ao aleitamento aumenta o índice de desmame precoce e o abandono total da amamentação no sexto mês de vida. Existe relação com a frequência de uso e a época da introdução, ou seja, quanto mais tempo a criança suga a chupeta, e quanto antes ela for introduzida, maior risco para o desmame. A causa do desmame, nesses casos, é a satisfação do desejo de sugar da criança que é suprida pela chupeta, acarretando menos sucção no seio materno e, consequentemente, menor estimulação. Artigos demonstram que a confusão na forma de sugar pode dificultar a pega no mamilo, diminuir a eficácia do aleitamento e gerar fissuras mamilares, outro fator envolvido no desmame precoce.

Quando o bico artificial está associado às fórmulas lácteas (mamadeira), os índices de desmame disparam. A principal causa é a satisfação gerada pela ingestão da fórmula, diminuindo a busca pelo seio materno, a estimulação do mamilo e consequentemente a produção de leite. Outro fator importante é que a extração do leite através do bico de borracha (por pressão negativa e hiperatividade do músculo bucinador) é mais fácil que a do mamilo (movimentos mandibulares vigorosos e língua bastante ativa) e a criança passa a ter uma predileção pelo primeiro. A prova disso é que é comum encontrarmos crianças que foram submetidas à mamadeira apenas uma vez e se recusam a pegar o peito.

Alterações ortodônticas e fonoarticulatórias estão entre os inúmeros males já descritos pelo uso do aleitamento artificial. Entretanto, a respiração bucal é uma das mais importantes e graves consequências da mamadeira, causando danos muitas vezes irreparáveis. O fato de mamar na mamadeira não substitui a necessidade de sugar e, invariavelmente, o uso dela está associado à chupeta, acentuando todos os problemas inerentes da sucção dos bicos de borracha.

O aleitamento protege a criança em todos os aspectos, supre as necessidades neurológicas de sucção, nutrição e emocionais, sem necessidade de subterfúgios. Cabe aos profissionais de saúde informar isso aos pais.

Texto original publicado no Boletim “Pediatra Informe-se” Ano XXVI • Número 153 • Setembro/Outubro de 2010, Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

Por Gabrielle Gimenez @gabicbs

[Na foto, minha mãe oferecendo a mamadeira ao Nando num dos primeiros dias de aleitamento misto. O que hoje eu chamo o começo do fim.]

1 comment

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  1. O que é a crise dos 3 meses? – Gabrielle Gimenez

    […] A falta de informação sobre o assunto, tanto da mãe quanto do profissional que a assiste, pode colocar em risco a amamentação e levar ao desmame precoce, causado pelo uso da fórmula (com diminuição do estímulo ao seio e queda da produção materna) normalmente oferecida na mamadeira (que na maioria dos casos pode ocasionar confusão de bicos ou rejeição do bebê ao peito). [Leia mais em: Confusão de Bicos: Mito ou Verdade?] […]

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