Leite materno causa cárie?

Leite materno causa cárie?

Entenda, com base nas evidências científicas mais atuais, porque não há relação entre amamentação e cárie, e conheça os benefícios já demonstrados da amamentação para a saúde bucal.

Um breve relato pessoal

Hoje foi dia de levar as crianças à odontopediatra e escutar dela muitos elogios. Desde que os gêmeos começaram a frequentar a escola e a participarem em eventos sociais e festinhas infantis que ficou mais difícil controlar tudo o que ingerem e nem sempre é como eu gostaria que fosse. Mas em casa continuamos cultivando hábitos saudáveis de alimentação e higiene e tento sempre transmitir a eles o ideal que buscamos, mesmo que as outras pessoas façam diferente. Açúcar na infância ainda é um tema tomado com muita leviandade tanto por pais quanto por profissionais. E alguns pais ignoram a importância de uma boa higiene bucal desde o nascimento dos primeiros dentes. (Leia mais em: Qual a Melhor Maneira de Cuidar dos Dentinhos do Bebê?)

Os gêmeos estão com 3 anos e mamam, inclusive de madrugada (cada vez menos, mas ainda acontece). Amamentação noturna e cárie é um tema que causa confusão e gera orientação equivocada por parte de alguns profissionais às famílias. Mas o que dizem as evidências científicas mais atuais a respeito? A seguir transcrevo a tradução do excelente documento elaborado pela Associação Espanhola de Pediatria sobre o assunto. Leiam e repassem!

Amamentação e cáries

Comitê de Aleitamento Materno da AEP
Paula Lalaguna Mallada
Carolina Jimenez Yuste
Irene Iglesias Rubio
Ano de edição: 2015

A Organização Mundial da Saúde (OMS) [1], a União Européia (UE) [2] e o Comitê de Amamentação da Associação Espanhola de Pediatria (AEP) [3] recomendam a amamentação exclusiva durante os primeiros 6 meses de vida e complementada com outros alimentos até 2 anos ou mais, ou seja, até que a mãe e o bebê desejem.

O efeito protetor da amamentação aumenta em proporção direta à sua duração[4]. Apesar dos preconceitos culturais de nossa sociedade, a amamentação após 2 anos continua a ter benefícios para a mãe e a criança e muitas mães escolhem essa opção natural que, por outro lado, era a norma biológica até o século passado[5].

Alguns autores relacionaram o desenvolvimento de cáries com o aleitamento materno prolongado e muitas mães tem sido indevidamente orientadas a desmamarem precocemente seus filhos por esse motivo. Entre outras razões, não podemos ignorar que se a amamentação fosse a causa da cárie, se encontrariam achados em populações pré-históricas e não tem sido assim. Por outro lado, o fato de que a prevalência de cáries em seres humanos é muito maior do que a de outros mamíferos [6] sugere que deve haver outros fatores envolvidos além do leite materno.

A seguir serão descritos a fisiopatologia da cárie e os fatores de risco envolvidos, e se analisará a importância do leite materno e sua composição rica em elementos que favorecem a remineralização e os fatores de defesa.

Como se desenvolve a cárie? 

A cárie do lactente e do pré-escolar (CLPE) é uma doença crônica e infecciosa de etiologia complexa e multifatorial. Consiste em um processo destrutivo do dente que ocorre como consequência da desmineralização da superfície dentária. As bactérias na boca metabolizam a glicose depositada no dente produzindo ácido láctico, diminuindo assim o pH e esse pH ácido (menos de 5,5) é responsável pela desmineralização.

Portanto, para o desenvolvimento de caries são necessárias várias condições:

  • Que haja dentes (não se produzem quando estes ainda não entraram em erupção).
  • Que existam bactérias cariogênicas: a mais frequentemente implicada é o Streptococcus mutans. As bocas das crianças podem ser colonizadas por essas bactérias através da inoculação involuntária por pais e cuidadores, quando os beijos são administrados na boca da criança, ou o alimento é soprado ou testado antes de ser administrado ao bebê [7]. Está demonstrado que é um fator de risco ALTO para o desenvolvimento de cáries em crianças com menos de 3 anos se a mãe tem ou teve cáries ativas no último ano [8].
  • Que se comam alimentos ricos em carboidratos: eles são o substrato das bactérias, especialmente os monossacarídeos que são metabolizados rapidamente. Alimentos com mais de 14% de açúcar são ALTO risco de cáries. Muitos alimentos introduzidos na dieta precocemente, como os cereais, contêm uma alta proporção de açúcares refinados dos quais não estamos conscientes.
  • O tempo durante o qual as bactérias estão aderidas ao dente é fundamental. Os alimentos mais pegajosos que permanecem mais aderidos ao dente e a ausência de higiene dental adequada aumentam o risco.
  • Que existam fatores individuais de predisposição para a cárie: a quantidade de saliva (reduzida em certas doenças, ou com o uso de medicamentos como corticosteróides comumente usados ​​para asma), defeitos do esmalte, uma anatomia irregular da superfície dental e outras circunstâncias individuais podem predispor a criança a ter mais cáries.

Propriedades do leite materno

O leite materno é um fluido de grande complexidade biológica, protege ativamente e é imunomodulador. Vários elementos de sua composição devem ser considerados ao avaliar sua influência na saúde bucal:

  • Fatores de defesa, que inibem o crescimento bacteriano, incluindo: Imunoglobulinas, especialmente Ig A [9], lactoferrina, que priva as bactérias de ferro e só o libera na presença de receptores no intestino e enzimas: como lisozima e lactoperoxidase com ação antimicrobial. Por outro lado, a microbiota do leite materno também desempenha um papel importante na exclusão competitiva, as bactérias não patogênicas competem pelo mesmo nicho biológico que os patogênicos.
  • Minerais como cálcio e fósforo e proteínas como a caseína que fazem com que o leite materno favoreça a remineralização.
  • Componentes como arginina e uréia que favorecem um aumento do pH e, portanto, diminuem a desmineralização.
  • Um pH adequado (o pH do leite materno varia de 7.1 a 7.7), o que não altera o pH no meio oral.

Todos esses componentes e suas ações fisiológicas explicam que o leite materno em si não é cariogênico [10], mas pelo contrário, evita o desenvolvimento de cáries.

O aleitamento materno está relacionado com o desenvolvimento da cárie? Qual é a evidência disponível?

Os estudos que concluem que a amamentação prolongada aumenta o risco de cáries do lactente e do pré-escolar (CLPE) geralmente apresentam grandes deficiências metodológicas e não levam em consideração fatores relacionados à patogênese desta doença. Por outro lado, muitas vezes, o posicionamento de profissionais sobre o assunto é influenciado por opiniões pessoais, experiências ou preconceitos contra a amamentação prolongada.

Após uma revisão da literatura usando a metodologia da medicina baseada em evidências, encontramos os estudos mais relevantes por seu projeto [11-21]: um estudo randomizado (Kramer 2007), 4 comentários (Valaitis 2000, Ribeiro 2004, White 2008 e Lavigne 2013), 3 estudos de coorte (Lida 2007, Arora 2011, Hong 2014) e 3 estudos transversais (Mohhebi 2008, Nunes 12 e Nobile 2014) concluem que NÃO HÁ NENHUMA EVIDÊNCIA CIENTÍFICA para demonstrar essa relação e destacar a baixa qualidade de muitos do trabalho sobre o assunto. Por outro lado, nenhum estudo foi encontrado que mostra que o desmame precoce reduz o risco de cárie dentária.

São especialmente reveladoras as descobertas de uma série de estudos antropológicos, incluindo o trabalho do Dr. Palmer [22] que examinaram os crânios de crianças do Museu Nacional Smithsonian em Washington, remontando à pré-história (quando a única forma de alimentação infantil era o aleitamento materno e sempre prolongado) e mostrou que, na grande maioria dos dentes decíduos estudados, não havia cáries.

Outra consideração é o fato de que, durante a amamentação, o mamilo é colocado no final da boca do bebê, na borda entre palato duro e palato mole para que não toque os dentes e no mesmo ato em que o mamilo é espremido, o leite é ingerido [23]. Por outro lado, durante a sucção não nutritiva, se o mamilo não é ordenhado, o leite não flui continuamente. Embora o bebê durma com o mamilo na boca, o leite não continua a sair. Já com a mamadeira sim existe um risco.

Quais são os riscos da ausência de amamentação para a saúde bucal?

A ausência de amamentação aumenta os riscos na saúde bucal[24], dentre eles a função de sucção-deglutição e respiração é alterada, pois não existe um desenvolvimento adequado da musculatura. Também interfere com o amadurecimento das futuras funções orais, aumentando o risco de deglutição atípica, respiração oral, disfunção mastigatória, dificuldades de fala, etc.

As crianças que não são amamentadas estão em maior risco de má oclusão dentária, especialmente mordidas abertas. No entanto, as crianças amamentadas, quanto mais elas são alimentadas ao seio, menos elas sugam seus polegares ou recorrem à chupeta. Sabe-se que existe uma relação inversa entre o tempo de amamentação e hábitos orais prejudiciais [25-26], uma vez que o bebê cobre suas necessidades de sucção não-nutritiva na mama. Portanto, promover a amamentação é fundamental para promover a saúde bucal.

Conclusões

NÃO HÁ EVIDÊNCIA CIENTÍFICA sobre a relação entre amamentação e cárie, e ainda, a amamentação demonstrou ter benefícios para a saúde, incluindo a saúde bucal. Por isso:

  • Todos os profissionais de saúde, incluindo dentistas, têm a responsabilidade de PROTEGER E PROMOVER O ALEITAMENTO MATERNO APOIANDO AS RECOMENDAÇÕES DA OMS e fornecer informações precisas e atualizadas com base em evidências científicas.
  • Os esforços devem ser dirigidos a enfatizar a importância da higiene dental em um estágio inicial da infância, aconselhando os pais a reduzir a frequência de consumo de açúcar por crianças, aconselhá-los a evitar dar beijos na boca da criança, soprar ou provar o alimento antes de dar ao bebê, especialmente se eles tiverem cáries ativas.
  • Devemos transmitir sem rodeios TODOS os benefícios da amamentação em geral e especialmente na saúde bucal.

Afirmar que a amamentação prolongada provoca cáries, sem nenhuma base científica conclusiva, desacredita os benefícios da amamentação, culpa as mães que optam por continuar a amamentar por mais de dois anos e desencoraja outras a continuar a fazê-lo, mal assessoradas pelos próprios profissionais ou pressionadas por um motivo que não possui justificação, deixando de aproveitar todos os benefícios da amamentação prolongada.

[Leia também: 9 Coisas Que Você Precisa Saber Sobre a Saúde Bucal do Bebê Antes dos Dentes e Paradas Daora do Leite Materno.]


Tradução* de Gabrielle Gimenez @gabicbs

* Publicada originalmente na minha conta do Facebook em 10 de outubro de 2017.

BIBLIOGRAFIA:

[1.] Organização Mundial de Saúde. Estratégia mundial para a alimentação do lactente e da criança pequena.1.Nutrição infantil 2.Aleitamento materno 3.Conduta Alimentar 4.Programas nacionais de saúde 5.Política de saúde 6.Pautas I. OMS, II.UNICEF. ISBN 92 4 356221 5.
[2.] EU Project on Promotion of Breastfeeding in Europe. Protection, promotion and support of breastfeeding in Europe: a blueprint for action (revised). European Commission, Directorate Public Health and Risk Assessment, Luxembourg, 2008.
[3.] Hernández Aguilar MT; Aguayo Maldonado J. La lactancia materna. Como promover y apoyar la lactancia materna en la práctica pediátrica. Recomendaciones del Comité de Lactancia Materna de la Asociación Española de Pediatría. AnPediatr (Barc). 2005; 63: 340-56
[4.] Melissa Bartick MD. The Burden of Suboptimal Breastfeeding in the United States: A Pediatric Cost Analysis. Pediatrics Vol. 125 No. 5 May 1, 2010.
[5.] Riaño Galan I, Díaz Gómez M. Temboury Molina Mº. C, Hernández Aguilar Mª T. Lactancia materna prologada en: Manual de Lactancia Materna de la Teoría a la Práctica. Comité de Lactancia Materna de la Asociación Española de Pediatría.. Ed: Asociación Española de Pediatría, Madrid 2008. Editorial Médica Panamericana. ISBN 978 84 7903 972 1
[6.] Emily P, Penman S. Handbook of small animal dentistry, 2nd ed. Pergamon Press, Toronto, 1994
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[8.] Pedrita Mara do Espírito Santo de Souza, Mariana Almeida Mello Proença, Mayra Moura Franco, VandilsonPinheiroRodrigues, José Ferreira Costa, Elizabeth Lima Costa. Association between early childhood caries and maternal caries status: A cross-section study in São Luís, Maranhão, Brazil. European Journal of dentistry 2015; 9(1): 122-126.
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Para ler o documento original em espanhol, clique aqui.

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