Vida depois dos filhos

Vida depois dos filhos. Foto: Elisa Elsie - Duas Estúdio
Foto: Elisa Elsie – Duas Estúdio

Ter filhos, mas não permitir que eles mudem a nossa vida, é realmente uma meta a ser perseguida? Afinal, o que há de errado com as mudanças? Qual o problema de rever prioridades, desacelerar a rotina, se permitir uma viagem de auto-conhecimento e uma reformulação da nossa identidade como a conhecíamos até então? Por que nos assusta e incomoda tanto lidar com a dependência extrema do ser humano ao nascer? Por que nos negamos, de maneira consciente ou não, a ser o porto seguro, a fonte de consolo, alimento e segurança que um bebê tanto precisa?

O ritmo alucinante que nos impõe a sociedade industrializada, o apelo ao consumismo desenfreado, o imediatismo, a desconexão consigo mesmo e com os demais, sobreposta pela corrida insana de ter e saber são grandes paradigmas que temos que enfrentar no dia a dia. No geral estamos tão imersos que nos resta pouca ou nenhuma auto-crítica para questionar o status quo, ou tentar remar em sentido contrário. Nos deixamos levar.

A chegada de um bebê ao seio de uma família provoca um grande colapso. A noção do passar das horas, de dia e noite, de descanso, de ócio, deixam de existir por um tempo. Tudo se concentra em atender as necessidades urgentes do recém-nascido: alimento, higiene, sono, choro. A vida de repente se resume a isso. E temos que lutar contra um forte sentimento de inutilidade. Mas de onde ele vem?

Infelizmente, não se permite aos novos pais o tempo necessário para interiorizar todas essas mudanças. E também falta informação adequada sobre desenvolvimento infantil, o que nos leva a ter expectativas irreais e a esperar muito dos bebês. E quando essas expectativas não são atendidas, somos invadidos por uma enorme frustração e desespero. Parece que tem algo de errado com o bebê, que ele precisa aprender como é dura a vida aqui fora. E quanto antes melhor. Quando na verdade os únicos que precisam aprender alguma coisa são os adultos.

Na nossa pressa de recuperar a vida perdida, passamos por cima de processos que deveriam ser naturais, e deixamos de atender as necessidades reais do bebê. Amamentar em livre demanda se transforma em “escravidão”. Passar muito tempo no colo na “causa de todos os males da humanidade”. Associar peito ao sono em algo “negativo”. Dar suporte à nova mãe para que ela tenha condições de cuidar melhor do seu bebê em coisa “prescindível”, afinal mãe que é mãe tem que dar conta de tudo sozinha. As desinformações que chegam até nós na forma de conselhos ou recomendações mais nos confundem do que ajudam.

O resultado disso são pais desamparados com um bebê saudável nos braços, mas ao qual se lhe atribuem todo tipo de “doenças” ou “desvios” de comportamento. E então começa o caminho, muitas vezes sem volta, das interferências externas na amamentação (chupeta, mamadeira, LA, horários rígidos), da medicalização desnecessária da infância (gases, cólicas, refluxo, hiperatividade), dos métodos de treinamento dos mais variados (sono, desfralde, desmame), numa tentativa de acelerar processos que a criança alcançaria por si só no tempo adequado, de forçar uma independência (dormir sozinho, não pedir colo, não fazer birra, não chorar) para a qual não existe maturidade fisiológica ou emocional no indivíduo a tão pouca idade.

Se voltarmos ao princípio, se procurarmos entender à luz das evidências o funcionamento natural e esperado dos nossos corpos e mentes no início da vida, se começarmos a dar mais atenção aos nossos instintos, vamos poder perceber quão longe estamos como sociedade do ideal a ser perseguido. Como temos sido desrespeitosos com nossos bebês. Como nossa cultura tem se transformado em “adultocêntrica”, quando na verdade as crianças são o elo mais frágil e as que mais precisam de proteção e acolhimento.

Se bem a chegada de um bebê pode ser a origem do caos para muitos, esse caos pode ser benéfico se utilizado para reorganizar a vida familiar, adequando-a à nova realidade. Mudanças podem ser positivas. A construção de uma nova identidade a partir da pa/maternidade pode ampliar nossa visão e nos levar a descobrir novas facetas, antes adormecidas. Priorizar as necessidades dos pequenos, construir uma relação de apego seguro com profundo respeito aos tempos fisiológicos de cada indivíduo só trarão bons frutos que serão colhidos ao longo de toda a vida, mas que precisam ser cultivados na primeira infância.

Texto de Gabrielle Costa de Gimenez @gabicbs

Texto originalmente publicado nas minhas contas do Facebook e Instagram em 05 de junho de 2018.

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