Afinal, para que serve uma doula?

Afinal, para que serve uma doula?
Foto: Elisa Elsie – Duas Estúdio

Não vou fazer um discurso técnico cheio de definições. Vou simplesmente narrar minha vivência.

Minha primeira experiência com o parto não foi das melhores. Trabalho de parto punk. Nada de pródomos ou fase latente. Já começou pra torar. Pirei! Nem as 3 doses de peridural que tomei ao longo das 6 horas no hospital ajudaram. Parto traumático cheio de intervenções. Me dava calafrios depois só de lembrar. Não quero ter que passar nunca mais por isso, pensei.

Alguns anos depois assisti O Renascimento do Parto – O Filme. Só então percebi o que tinha dado errado antes. Não era que eu fosse fraca ou covarde. Não tinha sido minha culpa o expulsivo complicadíssimo. O modelo de assistência é que foi ruim. Hospital vanguardista, equipamento de ponta, referência no exterior, patrimônio nacional. Mas no que diz respeito às práticas com parturientes, totalmente obsoleto.

Passei todo o trabalho de parto deitada, conectada ao soro e à máquina de monitoragem fetal. A peridural não aliviou a dor. E era um tal de empurrar e fazer força que me esgotaram e me fizeram pensar que ia morrer ou matar meu filho. Bebê coroou. Cruzo caminhando para o centro cirúrgico. Mais dor, mais “faz força”, kristeller, episiotomia, bebê fora. Tudo errado!

Quando descobri o universo da humanização do parto e das práticas obstétricas baseadas em evidências disse ao meu marido: É isso o que eu quero pra mim da próxima vez. E ele subiu ao barco comigo, abraçou a causa e teve início a maior aventura das nossas vidas até então.

Mas entre o modelo de assistência ideal e a realidade de onde vivíamos naquele momento havia uma diferença abismal. Estuda daqui, investiga dali e percebi que a única chance que teria de alcançar o desejado seria um parto domiciliar.

Quando essa opção me foi negada pelas equipes em atividade na cidade em virtude da minha gravidez gemelar, desanimei. Teria que me conformar com o modelo hospitalar e as chances altíssimas de terminar numa cesárea.

Era um risco que eu teria que correr. Mas dessa vez não passaria pelo processo sozinha. Escolhi uma doula pra me acompanhar na jornada. Ela aceitou o desafio. Apesar de ser experiente, era a primeira gravidez gemelar que acompanhava. Pra mim tudo era novidade também.

Foram mais que exercícios de respiração, massagens e alongamento numa bola de pilates. Foi aprender sobre a força da mulher e sua capacidade de superação, sobre a perfeição divina na fisiologia da gestação e do parto, sobre encarar a dor não como sofrimento mas como parte de um processo cujo resultado é maravilhoso, sobre estar tão confiante em si mesma a ponto de não se desesperar quando tudo sai fora do programado, sobre estar preparada para ser a protagonista do momento mais sublime da minha existência.

  • Afinal, para que serve uma doula?
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Foi ela quem me deu as primeiras instruções via celular quando as contrações começaram. Quem manteve a calma diante do inesperado e pronunciou as palavras que ninguém ousou emitir: Vai nascer agora! E ajudou meu esposo a receber a Beatriz, e me ajudou no trajeto do chuveiro à cama improvisada no chão do quarto. Quem segurou minha mão na segunda etapa, preparou compressas quentes pra aliviar a dor enquanto esperávamos o Matias. Repetiu em voz audível o que eu apenas conseguia pronunciar e fez valer minhas vontades. Vibrou e celebrou comigo a minha vitória sobre o sistema. Vitória que foi dela também. Me acompanhou nas primeiras semanas pós-parto e com suas mãos mágicas aliviou as tensões musculares da maratona do puerpério.

Ter uma doula por perto é uma das poucas coisas na vida que não tem contras só prós.

[Para ler nosso relato de parto natural gemelar clique aqui.]


Relato de Gabrielle Gimenez @gabicbs

Relato escrito e publicado originalmente na minha conta do Facebook em 16 de novembro de 2015.

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