Ausência materna e uso da chupeta

Ausência materna e uso da chupeta
Foto: Gabrielle Gimenez

A melhor forma de criar nossos filhos se baseia na prevenção de problemas futuros. Respeito pelo fundamental para nossa espécie é o que eles esperam de nós. Quando falamos do ideal, nos referimos a um nascimento respeitoso, à amamentação plenamente estabelecida, uma relação de apego construída entre o bebê e seus cuidadores com base no contato físico contínuo (dia e noite), tudo isso orquestrado pela responsividade.

Cada um desses tópicos, por si só, já dá muito pano pra manga. Mas para me ater ao tema da mais recente #tretadachupeta, quando acontece a separação precoce entre a mãe e o seu bebê, se perde muito mais do que o simples acesso ao seio para fins de sucção. A deficiência mais relevante e muitas vezes ignorada é a do toque. Incentivar o uso da chupeta nesses casos não passa de um mero paliativo repleto de efeitos colaterais indesejados e que desvia nosso olhar do verdadeiro X da questão.

A psiquiatra infantil Ibone Olza orienta que, mesmo na ausência da amamentação, se os pais optam por introduzir a chupeta, esta não deveria ser oferecida fora do colo do cuidador. A escritora Casilda Rodrigañez faz a seguinte observação: “O ruim da chupeta, por exemplo, não é que o bico seja de plástico; o pior é o corpo que falta por trás da chupeta”. Sucção e toque em conjunto são o desenho fisiológico ideal para o pleno desenvolvimento do ser humano e construção do apego, sendo o contato ainda mais relevante, especialmente se olharmos a longo prazo.

No entanto, o modelo industrializado desrespeita muitos processos humanos essenciais, contribuindo para que o natural deixe de ser o habitual. A psicóloga Rosa Jové, analisa: “Para que os pais possam conciliar vida profissional e familiar, se aumenta o número de creches sem levar em conta que muitos pais não levariam seus filhos para lá se o Estado lhes desse o dinheiro equivalente ao custo da vaga de seus filhos. Ou se o aprimoramento das leis facilitasse um atraso na incorporação dos pais ao mundo laboral quando a criança ainda é pequena”. E acrescenta: “O que acontece é que o modelo dominante hoje é um modelo reducionista. Ataca-se o problema sem tentar solucionar o que o causa”.

A ausência materna precisa ser suprida por muito colo e contato físico, permitindo à criança a liberdade de escolher o modo de suprir sua necessidade de sucção de forma fisiológica, como sugar o dedo, por exemplo. Normalizar o uso de chupeta para crianças precocemente institucionalizadas serve às instituições em si, que podem continuar com uma quantidade de cuidadores muito aquém do ideal, à força de crianças resignadas com suas chupetas na boca.

Mas do ponto de vista da criança os riscos não compensam os supostos benefícios, além do que, ao demandar menos, elas recebem menos atenção e cuidados. E está demonstrado que a privação de contato aumenta os níveis de cortisol no organismo, prejudicando não apenas o crescimento cerebral, mas também o crescimento físico e a função imunológica.

A problemática é muito mais ampla e complexa do que parece. E a verdade é que como espécie e sociedade ainda colheremos muitos malefícios da massificação das cesáreas desnecessárias e do aleitamento artificial, da ausência de contato contínuo mãe-bebê no período crítico de desenvolvimento e da terceirização da infância.


Por Gabrielle Gimenez @gabicbs

Texto originalmente publicado na minha conta do Instagram em 3 de novembro de 2019.

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