Relato de parto natural gemelar

Relato de parto natural gemelar - Matias e Beatriz
Foto: Júlia Costa

Contrariando todas as estatísticas da nossa cidade. Contrariando o sistema de assistência obstétrica estabelecido. Contrariando o preconceito e a ignorância de quem opina sem saber. O nascimento de Beatriz e Matias é a prova viva de que mulheres sabem parir e bebês sabem nascer. E embora esta afirmação tenha sido mal utilizada ou mal interpretada e até se transformado em clichê nos últimos anos, para mim continua sendo verdadeira.

Na noite do feriado de Corpus Christi em 04 de junho de 2015, comecei a sentir contrações apesar da medicação inibidora que me havia sido receitada por risco de trabalho de parto prematuro detectado na semana anterior. Estava com 35 semanas. Contei duas contrações na primeira hora; liguei pra doula. Contei quatro na segunda; liguei pra minha obstetra. Ela me mandou seguir para o hospital para avaliação pelo plantonista que logo entraria em contato com ela. Já havia contado três na terceira hora, quando decidi me levantar e tomar uma ducha quente para amenizar a dor na lombar antes de ir para a maternidade. A doula chegaria a qualquer momento e seguiríamos juntas para o hospital. No chuveiro as contrações que até então vinham em intervalos de 15 minutos, de repente se puseram bastante sequenciadas, até que não houve mais intervalos. Soube naquele instante que não havia volta. Foi um expulsivo tranquilo. Eu estava de pé, sob a água morna. E não tive de fazer absolutamente nada, somente deixar a natureza seguir seu curso, auxiliada pela lei da gravidade. Às 21h31 meu esposo amparou a nossa apressada Beatriz, que nasceu cefálica, empelicada, com 45 cm, 2,180 kg, e logo abriu um berreiro.

Ligaram então para a obstetra e avisaram que o primeiro gemelar havia nascido. Ela mandou que ligássemos para o SAMU que efetuaria a remoção imediata para o hospital. Meu pai saiu para buscar a obstetra em casa. Saí do chuveiro e fui deitar numa cama improvisada no chão no pequeno quarto anexo ao banheiro. Beatriz veio pro meu peito ainda conectada a mim e ali ficamos esperando os próximos acontecimentos. As contrações que se seguiram foram ainda mais dolorosas. A posição não ajudava, mas não tinha outra opção. Chegou a obstetra um tanto quanto consternada. Não havia nada esterilizado. Tudo fora dos padrões e da zona de segurança que os médicos estão acostumados a manejar. Compressas quentes e palavras de tranquilidade da doula, massagem na lombar pela obstetra, que me recordava a cada instante da importância da respiração e do foco em cada contração. Compressas frias no rosto e as orações em voz alta da minha mãe. O receio da GO é que pela última ultra o segundo gemelar estava pélvico, o que para ela seria condição de cesárea.

A equipe do SAMU chegou. Enquanto avaliavam a primeira gemelar e providenciavam o clampeamento do cordão, o segundo gemelar coroou. Uma vez que removeram Beatriz da cama, me reposicionei para o expulsivo. A paramédica fez uma manobra para acomodar o bracinho do bebê. E às 22h11 nascia o nosso Matias, cefálico, com 48 cm, 2,705 Kg. Ele precisou de massagem, aspiração e oxigênio. Uma vez estabilizado, cortaram o cordão e começaram os preparativos de remoção para o hospital.

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Na ambulância, nova checagem dos bebês que fizeram todo o trajeto em meus braços. A médica do SAMU os acomodou de maneira que pudessem mamar. Beatriz não perdeu a oportunidade. Durante o trajeto as placentas nasceram sem que me desse conta. Já no hospital me encaminharam para o centro cirúrgico. A GO já estava me esperando. Alguns pontos por uma pequena laceração, medicamentos de praxe, soro. Me sentia bem. Só um pouco cansada e faminta.

Não saía da minha cabeça as palavras da minha mãe (3 partos normais, sendo que seu último parto foi no carro a caminho do hospital, porque a obstetra na época não concordou com essa “história de parir em casa”) logo após o nascimento de Matias: “Obrigada por realizar meu sonho de ter um parto domiciliar”.

Deus sabia que a única maneira de eu ter todas as exigências do meu plano de parto atendidas (liberdade de movimentação no TP, sem sorinho, sem epsio, sem litotomia, sem kristeller, sem tração da placenta, contato imediato pele a pele, sem clampeamento precoce, sem aspiração desnecessária, sem colírio, sem banho, sem cesárea por comodidade médica, etc.) seria se as coisas se dessem do jeito dEle. Ele orquestrou cada detalhe de maneira perfeita. Cada um dos que estiveram ali presentes foram apenas meros espectadores.

Gratidão a Deus por me conceder muito mais do eu poderia pedir ou sequer sonhar. Ao meu marido, que se empoderou junto comigo nesse processo de redescoberta do parto como ele deveria ser. À minha família, que quase se fez militante pela humanização do parto neste último ano de relatos, evidências científicas versus mitos e novas pesquisas discutidas ao redor da mesa. À minha doula, Nicole Passos, por toda a força e apoio antes, durante e depois do parto. À equipe do SAMU, por mostrar-se tão segura e capacitada para enfrentar o inesperado, por serem tão respeitosos nesse momento único, por me encherem de palavras de ânimo e louvor no trajeto até a maternidade. Nossa família será eternamente grata a vocês Dra. Cláudia, Raniere e Leonardo. À minha obstetra pelos cuidados que me prestou uma vez chegada à maternidade e os informes que transmitiu à equipe do hospital.

PS1: Escrevi este relato no dia 11 de junho de 2015, sentada na cama do apto 205 da maternidade, enquanto os gêmeos dormem uma soneca. Este é o nosso sétimo dia aqui e estamos ansiosos pela chegada do relatório de alta do Matias que esteve quatro dias na UTI Neo, em função de um desconforto respiratório.

PS2: De maneira alguma este relato faz apologia ao parto desassistido. Fiz todo meu acompanhamento pré-natal, já tinha escolhido a maternidade, e estava assistida por uma obstetra. Meus filhos não nasceram em casa por negligência. Coisas inusitadas acontecem. Meu parto foi obra da divina providência.


Relato de Gabrielle Gimenez @gabicbs

Relato escrito e originalmente publicado na minha conta pessoal do Facebook em 11 de junho de 2015.

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