Você sabe o que é perturbação na amamentação?

Perturbação na amamentação. Agitação na amamentação.
Foto: Gabrielle Gimenez

A perturbação ou agitação na amamentação é um sentimento de aversão ao ato de sugar o seio, que leva a mulher a querer afastar a criança que está mamando imediatamente de si. A razão pela qual as mulheres experimentam isto não é totalmente conhecida. Não se trata de um sentimento racional, não envolve dor, apenas um desejo muito forte de fugir da situação, que pode ser acompanhado de sentimentos que oscilam entre a irritação e a raiva, ou como algumas descreveram, uma sensação de arrepio ou comichão na pele. A frequência e intensidade das sensações são variáveis (YATE, 2017¹). Em geral, pode acontecer com mulheres que amamentam crianças mais velhas, na presença ou não de uma nova gestação, ou que amamentam em tandem crianças de idades diferentes (quando se amamenta a mais velha), ou ainda durante a ovulação ou período menstrual, ou momentos de maior ansiedade e cansaço. A sensação desaparece assim que a criança solta o peito.

Quando isto ocorre, pode ajudar uma redução do número de mamadas ao longo do dia e da duração das mamadas em si, especialmente naquelas em que a sensação é mais intensa (por exemplo, na última mamada do dia). Como normalmente acontece quando se amamenta crianças mais velhas, os combinados podem ser usados para restringir os momentos e os locais em que a amamentação acontecerá. Música ou contagem numérica são uma boa opção para limitar o tempo de duração das mamadas.

É importante que a mulher faça uma autoavaliação e identifique a origem da perturbação. No caso de mudanças hormonais durante a ovulação, TPM ou período menstrual, ou ainda na lactogestação, essa perturbação pode ser temporária, desaparecendo completamente uma vez que os hormônios estejam reequilibrados. Consciente disto, ela poderá se preparar previamente para atravessar essas fases. Em relação ao cansaço ou à ansiedade pelas tarefas que ela precisará realizar depois, pode ajudar amamentar em um lugar tranquilo, controlar o ritmo da respiração, e procurar algum tipo de distração física ou exercício mental que a ajude a deixar pra lá a lista de afazeres pendentes ou a desconecte do momento em si até que passe.

Mas se a perturbação se mostra persistente e severa, e parece não estar associada a outros fatores, é interessante que esta mãe comece a trabalhar conscientemente outras fomas de conexão com a criança antes de que haja um desgaste excessivo na relação ao ponto de culminar em um desmame abrupto. No caso da amamentação em tandem esta pode ser uma missão ainda mais desafiadora, já que a tendência do filho mais velho com a chegada do irmão é aumentar a solicitação pelo peito (o que em si mesmo é algo natural e benéfico para a tríade mãe-criança-bebê, desde que a perturbação não esteja presente) e pode se sentir preterido se a mãe simplesmente lhe negar o peito, mas continuar oferecendo ao mais novo, sem que haja uma compensação.

Em qualquer que seja o caso, será primordial o diálogo franco, o respeito e o tempo investido em atividades que promovam a conexão entre a mãe e a criança. Assim como na regulação da livre demanda ou na condução do desmame pela mãe, o foco não deve ser tirar o peito, mas criar novas pontes entre mãe e filho que supram suas necessidades de carinho, contato, consolo, companhia, etc., ao ponto dele não precisar mais do peito pra isso.

Também é importante que a mãe consiga libertar-se dos sentimentos de culpa ou vergonha, entendendo que não se trata de uma rejeição à criança ou falta de amor de sua parte, mas em alguns casos uma forma do seu organismo dizer que talvez seja a hora de desmamar, ainda que o seu desejo fosse de continuar amamentando. Se mãe e filho não estiverem preparados pra isso, será fundamental buscar apoio. Um lugar seguro de escuta, para abrir o coração e falar sobre os sentimentos conflitantes com outras mães que estejam lidando com o mesmo, pode trazer algum alívio e maior leveza ao processo.

Por Gabrielle Gimenez @gabicbs

¹Yate ZM. A qualitative study on negative emotions triggered by breastfeeding; Describing the phenomenon of breastfeeding/nursing aversion and agitation in breastfeeding mothers. Iranian J Nursing Midwifery Res 2017;22:449-54.

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