O que é a crise dos 3 meses?

O que é a crise dos 3 meses?
Foto: Gabrielle Gimenez

Dentre todos os períodos de “crise” no desenvolvimento infantil, esta fase de mudanças e adequação na produção de leite da mãe, que em geral ocorre entre o 2° e o 4° mês é uma das que merece maior atenção. Pela minha experiência pessoal e acompanhando os relatos de muitas outras mulheres, vejo que esta é a fase onde os médicos (mesmo os que se dizem pró-amamentação num primeiro momento) mais intervêm com recomendação de complementação com fórmula (desnecessária, diga-se de passagem) entre outras cobranças descabidas (como o ganho de peso mensal em valores rígidos e sempre crescente) que acabam por minar a confiança materna na sua capacidade de nutrir o seu bebê e as levam a encarar como algo anormal um processo completamente natural e esperado.

A falta de informação sobre o assunto, tanto da mãe quanto do profissional que a assiste, pode colocar em risco a amamentação e levar ao desmame precoce, causado pelo uso da fórmula (com diminuição do estímulo ao seio e queda da produção materna) normalmente oferecida na mamadeira (que na maioria dos casos pode ocasionar confusão de bicos ou rejeição do bebê ao peito). [Leia mais em: Confusão de Bicos: Mito ou Verdade?]

Para evitar que isto aconteça é fundamental entender o mecanismo da produção de leite e as transformações que estão acontecendo nesta fase. A seguir compartilho uma explicação bem didática da consultora internacional em amamentação Alba Padró, com minha tradução, sobre este período:

A chamada “crise dos três meses” é talvez a mais “delicada” e complexa, pois afeta a mãe e o bebê e a situação leva aproximadamente um mês para normalizar:

O bebê não pede pra mamar com tanta frequência, algo que a mãe pode interpretar de maneiras diferentes: ele não está com fome, não quer comer ou a rejeita.

A criança que anteriormente estava encantada por passar muito tempo no peito agora leva apenas alguns minutos.

A mãe percebe os seios macios, e o atribui à produção insuficiente de leite.

O bebê tem mamadas caóticas, nas quais ele se distrai com qualquer coisa e muitas vezes começa a chorar logo após começar a mamar.

Ele só parece sugar bem e com calma quando está dormindo.

O bebê engorda menos, o que é perfeitamente normal à medida que crescem, mas pode reforçar a sensação de fome.

Freqüentemente, há uma diminuição na frequência dos movimentos intestinais do bebê (se, até então, eles faziam cocô várias vezes ao dia, podem passar a fazer apenas uma vez por dia ou até passar vários dias sem fazer). Como os movimentos intestinais também são geralmente interpretados como medidores de ingestão de leite, a mãe pode interpretar essa frequência mais baixa nos movimentos intestinais como um sinal de ingestão insuficiente

Mas o que realmente está acontecendo?

Após três meses, os bebês são especialistas na arte de sugar e, em alguns minutos, podem extrair todo o leite de que precisam.

Também após três meses, há grandes mudanças no seu cérebro; as conexões neurais se multiplicam a toda velocidade e isso abre um mundo de sensações. Até três meses, seu senso de visão e audição é limitado, imaturo e possui funcionalidade reduzida. Depois de três meses, no entanto, a visão melhora drasticamente e eles começam a enxergar além do rosto da mãe, de modo que se distraem por qualquer coisa no momento da amamentação: um quadro na parede atrás da mãe, alguém que está sentado ao lado, uma mosca que voa, o rosto da mãe, para o qual a criança olha e sorri, o momento em que o papai entra na sala… E com a audição a mesma coisa acontece: se alguém entra na sala e fala, se a TV faz barulho, se uma ambulância passa pela rua… a curiosidade saudável da criança a leva a parar de mamar para ouvir o que está acontecendo ao seu redor, e as mães se desesperam com esse comportamento irregular e aparentemente displicente: “Mama em 5 minutos ou menos, e durante este tempo solta o peito ou se distrai mil vezes. É claro, à noite, mama que é uma maravilha e passa muito tempo em cada peito, como antes, sem soltá-lo e sem chorar”.

Como se isso não bastasse, depois de três meses os bebês choram quando mamam. Eles começam a sugar e em seguida a berrar em desespero. Isso apenas aumenta a angústia da mãe, pois ela percebe as mamas extremamente macias, tem a sensação de que mal produz leite e é possível que tenha deixado de notar o peito enchendo. Outra combinação de fatores que leva as mulheres a abandonarem a amamentação de forma precoce e não desejada.

A situação tem uma explicação lógica e, é claro, a mãe tem leite suficiente e a capacidade de fabricar tudo o que a criança precisa a qualquer momento. Mas o corpo materno é muito sábio e modifica o sistema de produção de leite para otimizar o processo. Agora, a glândula mamária está pronta para produzir leite no momento em que a criança o requer e leva apenas 2,2 minutos para o corpo acionar o reflexo de ejeção e fornecer à criança todo o leite de que precisa. A verdade, no entanto, é que os bebês tendem a ficar chateados com essa mudança. Eles estavam acostumados a encontrar a quantidade de leite que desejavam assim que chegavam ao peito, mas agora precisam mamar, esperar alguns minutos e mamar novamente.

Aqui está uma situação similar que pode ajudá-la a entender o processo: até o momento da crise, as crianças comiam em um buffet com auto-serviço 24 horas e, apenas sentavam à mesa, já tinham a comida diante delas. Quando a crise começa, o restaurante bandejão se transforma em um restaurante de luxo, e é preciso esperar pelo garçom, ler o cardápio e aguardar para ser servido, o que se traduz em 2,2 minutos de espera, e os faz sentir-se muito mal durante o mês e meio que levam para aprender que precisam esperar 2 minutos para comer. A quantidade de leite que bebem é exatamente a que precisam, não há problemas de falta de leite.

Como resultado de tudo isso, a crise dos três meses é frequentemente o momento em que a suplementação com leite artificial e o abandono gradual da amamentação começam. O sentimento de rejeição e falta de leite toma conta da mãe, embora, na realidade, o que está acontecendo seja perfeitamente superado se for entendido e tratado adequadamente.

Todos os fatores envolvidos na crise de três meses a tornam muito complexa e, se os mecanismos pelos quais ela ocorre não são conhecidos, o resultado é um abandono precoce da amamentação com o sentimento errado de falta de leite ou rejeição do bebê.¹

Obviamente, todos estes desdobramentos não são apenas culpa da mãe, porque embora a confusão possa até nascer da sua desinformação, a situação piora quando a família sofre pressão do profissional que, tampouco tem conhecimento do assunto e, reforça o mito do leite insuficiente, que vai perdendo a qualidade com o passar do tempo e por isso se faria necessário o uso de fórmula pra “dar uma força”.

Como eu sempre digo, os medos se vencem com informação. Entender o que está acontecendo nos ajudará a manter a tranquilidade e a confiança de que está tudo bem e que as fases desfiadoras logo passam. E também a filtrar recomendações médicas descabidas e a buscar uma segunda opinião se for o caso.


Por Gabrielle Gimenez @gabicbs

Texto em negrito por Alba Padró, IBCLC e autora do livro Somos la leche. Você pode acompanhar o seu trabalho no Instagram @albapadibclc

¹Extraído de uma publicação do portal Alba Lactancia Materna. Para ler o texto completo original em espanhol, clique aqui.

[Na foto, o Fernando, meu filho mais velho, às vésperas de completar 3 meses. Por intervenção inadequada do pediatra começamos com complementação com fórmula na mamadeira a partir do 4° mês. Ele acabou desmamando precocemente aos 9 meses por confusão de bicos. Na época não tinha informação sobre o tema, segui à risca a orientação médica e pensei que ele havia largado o peito sozinho. Mas estava enganada. Posteriormente, com informação e apoio amamentei os gêmeos, Beatriz e Matias, por 4 anos e 7 meses, sem fórmula e sem mamadeira. Informação é poder!]

20 comments

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  1. Suellem

    Que legal Fabi, amei o o texto.
    Realmente informação é poder.
    Mas, você continuou a amamentar os gêmeos normal, se ajustando nos contratempos, no jeitinho deles, sem nada de diferente, somente persistiu?
    Meu bebê está com 1 mês agora

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    • gabriellegimenez

      Sim. Fui me ajustando, trabalhando a autoconfiança e seguindo um dia de cada vez. Porque nas primeiras crises o emocional fica um pouco balançado e a gente se questiona se realmente não há nenhum problema. Mas quando a crise passa vemos que tava tudo bem.

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  2. Nathalia Dantas

    Gaby! Queria ter conhecido você antes!!! Sai do hospital com minha menina tendo sido suplementada com fórmula pois acreditei que por conta de cirurgia de redução de mama não teria nem colostro e nem leite suficiente! Estamos com 2 meses de aleitamento misto! Oferto a fórmula via relactacao! Sonho com o o aleitamento exclusivo! Alguma dica? Parece que minha produção realmente é baixa! Tentei alguns protocolos mas sem muito sucesso ainda!

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    • gabriellegimenez

      Amamentar em livre demanda é o melhor protocolo pra manter uma boa produção. A sucção do bebê é o modo mais eficaz de ordenha e estímulo. O uso da sonda por tempo indeterminado pode afetar a amamentação em algum momento por causa da confusão de fluxo. Talvez, mais pra frente trocar a sonda por copo e fazendo acompanhamento com profissional capacitado provar a redução gradual do volume de fórmula aumentando a oferta do peito. Trabalhar sua autoconfiança é fundamental. Só dá pra saber tentando.

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  3. Brunna.

    Na amamentação em tandem TB seria assim com o nosso organismo?!
    Pois faço LD com ambas mas por não encontrar tanta informa ao sobre na internet, tenho receio de faltar leite para a mais nova, visto q a mais velha anda mamando muito, inclusive deixando de comer para mamar.

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    • gabriellegimenez

      Na verdade, o “trabalho” que a mais velha faz no peito facilita muito a vida da mais nova. Não falta leite. Na verdade a produção fica potencializada. Normalmente mães em tandem não percebem os picos de crescimento nos bebês e eles ganham mais peso que o irmão quando tinha a mesma idade. Pode amamentar tranquila.

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  4. Renata

    Meu bebê tem 2 meses e meio e me identifiquei muito com as informações dessa matéria. Foi muito bom entender a questão dos peitos mais macios e do por que.

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  5. ABLAINE ROMANO MINEIRO

    Estou chocada com tudo isso pois me identifiquei demaaaiss… estou exatamente nesse momento com meu filho.. tentando entender o porque de tudo o que estava dando tao certo com a amamentacao e do nada mudou. Eu ja tinha ouvido falar nessa crise mas nao conseguia descrever pras pessoas. As pessoas achavam que era coisa da minha cabeca. Meu filho completa 4 meses hj e ganhou apenas 115g no ultimo mes… pediatra me deu 1 semana pra ele ganhar entre 20 e 25g por dia senao vai me recomendar a formula. Mas gracas a Deus estou focando na amamentacao, prestando atencao na pega e estou vendo meu filho ganhar peso diario. Ta tudo explicado. Amei! Tenho certeza que vai dar certo mas essas informacoes me fizeram entender tudo e me tranquilizaram… muito obrigada!

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  6. Ludmilla Lopes

    Que legal ler este texto. Minha bebê 3 meses e com algumas mamadas caóticas – pega e larga ou chora. Já estava achando que tinha algum problema. Só fiquei tranquila porque algumas mamadas do dia eram tranquilas. Bom saber que tem uma explicação.
    Obrigada 😊 🙏🏻

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  7. Patricia Cunha

    Oi Gabi. Sinto que estou passando por esse momento agora. Mandei o texto pro marido, minha irmã e minha mãe. Eu já havia lido antes, então não me assustei quando começou. Mas queria perguntar algo. Como ela pede menos pra mamar durante o dia, a recomendação é que eu ofereça o peito pra ver se ela quer? Porque muitas vezes só o fato de deitar na posição de mamar, ela já berra. Quem vê de fora deve pensar que sou maluca rs. Depois, quando acalma ela pega, mama e dorme. Muito obrigada pelo tanto de informação que você divulga. Beijos

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    • gabriellegimenez

      Se achar que já passou muito tempo desde a última mamada, você pode tentar amamentar em um lugar tranquilo, com poucos estímulos ou distrações. Se mesmo assim ela recusar, não precisa insistir. Ela certamente compensará em outro momento. Um abraço. Vai passar! 💛

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  8. Fernanda

    Nossa! É possível que essa crise seja vivenciada aos 2 meses? Minha filha está agindo exatamente como na descrição. Quase inserir a fórmula, mas ao contrário da sua pediatra, a minha me pediu pra ter paciência, eu que solicitei a fórmula por acreditar que minha bebê estava com fome, que meu leite estava insuficiente.

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