Biotipo e genética no desenvolvimento infantil

Biotipo. Genética. Crescimento. Desenvolvimento infantil. Peso. Balança.
Foto: Gabrielle Gimenez

Cada ser humano é único e essa individualidade precisa ser respeitada por pais e profissionais. Biotipo e genética contam na avaliação da saúde global da criança.

Um caso concreto para reflexão

Vou usar os gêmeos para ilustrar a seguinte situação. São filhos do mesmo pai e da mesma mãe, gestados simultaneamente, nascidos com a mesma idade gestacional, cada um com sua própria placenta e sem problemas de restrição de crescimento intrauterino. Nasceram prematuros pré-termo com uma diferença de 3cm e 525g entre eles. Hoje, quase 4 anos depois, esta diferença é de 7cm e 3kg (sempre a favor do Matias) havendo recebido o mesmo leite (o materno) e tendo acesso ao mesmo tipo de alimentação. Foram (e ainda são) super saudáveis e se desenvolveram (e continuam) dentro dos marcos esperados para cada fase, mesmo se comparados a bebês nascidos à termo. Cada um no seu próprio ritmo. Nunca foram gordinhos como os bebês de propaganda, e até hoje mantêm o biotipo esbelto.

Aonde quero chegar com este exemplo?

Em primeiro lugar, nunca compare seu filho com o de ninguém. Nem mesmo com os seus próprios filhos, ainda que sejam gêmeos idênticos. Cada ser humano é único e essa individualidade deve ser respeitada.

Em segundo lugar, desconfie e questione sempre o profissional que quer enquadrar todos os bebês dentro do mesmo padrão. Que fala em ganho de peso fixo mensal, ou que tudo é desculpa para receitar fórmula. Que insinua que o seu leite perdeu a eficácia em determinado momento e precisa ser substituído. (Veja também: Quando o Leite Materno Vira Água?)

Possíveis problemas a considerar

Na maioria dos casos o problema não é o leite materno ou o bebê que “não ganha peso”, mas a expectativa irreal do profissional e da família em relação à balança. Como se o peso fosse o único parâmetro para avaliar a saúde da criança. Em alguns casos, o ganho de peso insatisfatório se deve ao manejo incorreto da amamentação, como pega ou posição incorretas, problemas na transferência efetiva de leite, ausência de livre demanda, etc. Em outros, à presença de algum fator desestabilizador na saúde do bebê (alergia alimentar, infecção urinária, refluxo, etc.) negligenciado pelo profissional, que ao invés de investigar o quadro a fundo, se limita a recomendar a introdução de leite artificial.

Mas descartadas essas hipóteses, é bem provável que este seja simplesmente o biotipo da criança e seu ritmo próprio de crescimento. Lembrando também que o ser humano não cresce de maneira linear (veja que os gráficos devem formar uma curva e não uma reta), nem engorda de maneira constante e exata. Senão que apresenta momentos de maior e menor crescimento o que vai repercutir no seu ganho de peso e na quantidade de alimentos que precisará ingerir em cada fase. Por isso é importante continuar respeitando, mesmo com o início da introdução alimentar, a autorregulação e noção de saciedade adquirida pelo bebê durante o aleitamento materno exclusivo em livre demanda, e jamais obrigá-lo a comer.

Um ponto de vista importante sobre biotipo e genética ao longo do desenvolvimento infantil

Nas palavras do pediatra espanhol Carlos Gonzalez:

Um dos maiores mitos sobre nutrição é que “você precisa comer para crescer”. Ou seja, muitas pessoas acreditam que o crescimento é uma conseqüência da alimentação. Não é assim. Somente em casos de desnutrição verdadeira o crescimento passa a ser afetado.

[…] Na verdade, não crescemos porque comemos, mas comemos porque estamos crescendo. O tamanho e a corpulência de um pastor alemão e um poodle estão firmemente ancorados em seus genes. Cada animal é obrigado a comer a quantidade de alimento (nem mais, nem menos) necessário para atingir seu tamanho normal. O mesmo vale para os seres humanos: aquele que será um adulto alto e corpulento sempre comerá mais do que aquele que será baixo e magro.

[…] O tamanho final atingido por um indivíduo adulto depende basicamente de seus genes e apenas um pouco de sua dieta. Pais altos tendem a ter filhos altos. Mas a velocidade do crescimento em um determinado período depende, basicamente, da idade e apenas um pouco dos genes. Uma menina de treze anos, por menor que seja sua família, crescerá mais rápido do que uma menina de três anos. E terá mais fome.

Carlos Gonzalez, em seu livro Meu Filho Não Come, São Paulo: Editora Timo.

Conclusão

Entendam: a cultura do desmame é muito forte. A pressão da indústria chega a níveis que jamais seremos capazes de dimensionar. Não espere que seu desejo de amamentar esteja por um fio para procurar ajuda. Contrate um consultor certificado ou procure o banco de leite mais próximo. Não hesite em buscar uma segunda opinião médica. E sobre todas as coisas: respeite o biotipo e o ritmo de crescimento do seu filho em cada fase. É um esforço que vale a pena.

[Leia também: O Que Podemos Esperar do Ganho de Peso dos Bebês? e Maternidade e Matemática Não Combinam.]

[Para se aprofundar no tema, não deixe de assistir a nossa live ou ouvir o nosso podcast sobre Amamentação e Desenvolvimento Infantil.]


Por Gabrielle Gimenez @gabicbs

Texto originalmente publicado na minha conta do Instagram em 3 de março de 2019 e atualizado nesta edição.

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