Violência obstétrica: um relato pessoal

Violência Obstétrica. Foto: Gerardo Gimenez
Foto: Gerardo Gimenez

Não, eu não estava preparada para a intensidade da dor que eu sentiria com o início do meu trabalho de parto. Lembro de ter uma espécie de premonição, de sensação estranha e então a contração veio forte, avassaladora. Depois da primeira a bolsa estourou e muitas outras se seguiram cada vez mais intensas, ritmadas e de intervalos muito curtos.

Mas eu não estava mesmo preparada para ser desrespeitada, coagida, inibida no momento mais doloroso e delicado da minha existência até então.

Não estava preparada para escutar da enfermeira da triagem que deixasse de fazer drama que a dor não era tão terrível assim. Não estava preparada para ficar deitada em uma maca, conectada por um lado ao soro e por outro à máquina de monitoragem fetal, me retorcendo de dor. A analgesia veio atrasada e não trouxe qualquer alívio apesar das três doses que tomei durante o tempo que estive na sala de dilatação. Não estava preparada pra que me mandassem fazer força quando eu não tinha vontade, que me fizessem incontáveis toques, que me olhassem com cara de “essa aí não vai aguentar o tranco”. Não estava preparada para ver a pressão subir no ambiente e me sentir incapaz de seguir com aquilo e naquelas condições. Tive medo de morrer ou de matar meu filho. Não estava preparada para por fim ser levada e atada no centro cirúrgico em posição ginecológica, pra continuar fazendo força sem saber como ou porque. Não estava preparada para ser cortada e ver meu sangue espirrar na cara da obstetra. Não estava preparada para que empurrassem minha barriga numa manobra para ajudar o bebê “muito grande” a sair. Não estava preparada para que tracionassem a placenta e a arrancassem de dentro de mim. Não estava preparada para me tornar espetáculo para todos os residentes e curiosos que passavam por ali. Meu corpo nu exposto, minhas pernas abertas para o universo enquanto esperava limpeza e sutura. Não estava preparada para ficar por um período que me pareceu interminável no corredor do hospital olhando para o teto, escutando a conversa de alunos na sua folga enquanto esperava pelo maqueiro que me levaria ao quarto. Eu realmente não estava preparada para os calafrios que começaram a percorrer meu corpo inteiro cada vez que as cenas do que havia vivenciado ali vinham a minha mente como flashes. Não estava preparada para desejar com todas as minhas forças nunca mais ser mãe.

Mês que vem meu filho completará 5 anos. É a primeira vez que relato por escrito essa experiência. Por muito tempo convivi com a ideia equivocada de que eu tinha feito tudo errado e me saído mal, que eu era fraca. Até que assistindo o documentário O Renascimento do Parto eu entendi que o problema não estava comigo, mas sim com o modelo obsoleto de assistência ao parto ao qual eu havia sido submetida. Entendi que havia sido vítima de violência obstétrica. Chorei muito. E prometi a mim mesma que nunca mais me permitiria passar pela mesma situação outra vez.

Então veio a gravidez gemelar e o parto natural. E embora as coisas tenham acontecido de modo diferente ao esperado, a experiência para mim foi libertadora. Um banho de água quente com massagem local fez mais por mim que toda a analgesia do trabalho de parto anterior. E ainda que as contrações eram igualmente fortes e dolorosas, meu corpo as aguentou sem maiores problemas. Entendi que quando chega a hora certa o próprio corpo faz a força e só temos que acompanhar a natureza e permitir o nascimento. Comprovei que parir em pé é a melhor maneira de usar a força da gravidade a nosso favor. Clampeamento tardio do cordão, contato pele a pele prolongado, amamentação na primeira hora de vida, nascimento natural das placentas. Ninguém me tocou, ninguém me apertou, ninguém empurrou minha barriga. Apenas uma laceração mínima resultado da minha posição horizontal no segundo expulsivo, mas uma recuperação infinitamente mais rápida que a da vez anterior.

Mulheres sabem parir, bebês sabem nascer. O que mais me dói é saber que todos os dias nos hospitais ao redor do mundo, mulheres continuam sofrendo violência verbal, moral e física. Sendo desrespeitadas nos seus direitos básicos. O sistema precisa mudar. O modelo de assistência ao parto precisa ser revisto segundo as evidências científicas mais atualizadas. A mulher precisa recuperar o seu protagonismo. O bebê precisa ter seu tempo respeitado.

Relato de Gabrielle Gimenez @gabicbs

[Na foto de 2012, grávida de 36 semanas do Fernando.]

Relato originalmente publicado na minha conta do Facebook em 02 de outubro de 2017.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.