Movimentos para uma maternidade mais leve

Movimentos para uma maternidade mais leve. Foto: Elisa Elsie - Duas Estúdio
Foto: Elisa Elsie – Duas Estúdio

Acabo de regressar de três semanas de férias com a família. Obviamente não descansei nada, porque afinal férias com crianças e descanso materno são coisas incompatíveis. Mas estar longe da minha rotina me deu tempo para refletir sobre a maneira como eu estava lidando com ela e como isso estava afetando minha saúde física e emocional. Cheguei à conclusão de que embora não possa mudar as circunstâncias ao meu redor, posso mudar a maneira como me deixo influenciar por elas.

Ainda não desfiz as malas, e estamos retomando o ritmo aos poucos. Mas decidi mudar o foco das prioridades. Depois de seis anos de maternidade exercida em tempo integral, penso que talvez seja o momento de começar a dar certos passos. Deixei o caos da casa pra trás, fechei a porta e saí pra caminhar após anos de sedentarismo resignado. Estar em movimento ao ar livre é uma terapia bastante eficaz. Ajuda a organizar melhor as ideias. Precisava dar continuidade a essa auto-avaliação.

Pensando sobre a sociedade em que vivemos e a cultura imperante, consegui traçar alguns passos necessários a serem dados se desejo viver uma maternidade (e a vida em si) com mais leveza. São movimentos que convidam a uma mudança de dentro pra fora. Não são uma fórmula mágica para a solução de todos os problemas, mas podem ser a porta de entrada para um processo que me levará a encarar a vida e a maternidade sob uma nova perspectiva. Estendo o convite a você que me lê.

1. Substituindo o auto-boicote pelo auto-cuidado:

A maioria de nós vive uma rotina insana, sob o constante bombardeio de (des)informações. Consumimos o que as pessoas compartilham nas redes sociais e somos tentadas a medir nossa felicidade e sucesso pelos padrões alheios, que sequer sabemos se são reais. Ou você nunca teve a impressão de que todo mundo viaja para lugares exóticos nas férias, come fora com frequência, tá firme e forte na vida fitness, tem sempre um item novo no guarda-roupas, filhos que não dão trabalho, um companheiro romântico e a carreira que vai de vento em popa… Todo mundo, menos você.

Se formos avaliar nossa vida por esses parâmetros, vamos encontrar motivos de sobra para nos sentirmos um lixo, fracassadas, fora do peso, fora de moda e por aí vai. Hiperdimensionamos os defeitos ao ponto de não conseguirmos ver mais nada de bom em nós mesmas ou na nossa existência. Nos rendemos. Isso é injusto, além de ser uma grande mentira. Um auto-boicote na sua máxima expressão.

Talvez seja necessário dar um tempo e nos desconectarmos do mundo lá fora para nos concentrarmos em nós mesmas. Sem medo do que podemos chegar a encontrar, mas adotando uma postura de auto-crítica que anda de mãos dadas com o auto-perdão. Todas possuímos defeitos e limitações, mas eles não precisam ser determinantes. Saber identificá-los, assumi-los, pode nos ajudar a encontrar a maneira de superá-los. Pode ser que precisemos mudar alguns hábitos, rever algumas prioridades, negociar uma divisão de tarefas mais equilibrada para que tenhamos esse tempo pra nós, de auto-cuidado. Uma refeição balanceada feita sem pressa, uma boa leitura, um tempo para atividade física ou para não fazer absolutamente nada.

Faz parte da maternidade a priorização do novo ser que nasce tão dependente de cuidados. É uma fase cansativa, porém necessária, e os benefícios dessa entrega são valiosos. Por isso é importante que proponhamos metas plausíveis, dentro da nossa realidade materna do hoje e do agora, sabendo que a medida que eles crescem poderemos ousar mais. Essa é uma experiência transformadora por si só, mas não devemos esquecer quem somos e quem pretendemos chegar a ser. O aperfeiçoamento é um processo que dura a vida inteira.

2. Trocando relacionamentos superficiais por conexão verdadeira:

Um outro efeito dos avanços das telecomunicações é a ampliação das redes de relacionamentos. Mal damos conta de administrar tantos grupos, amigos, seguidores, comentários, mensagens. Não faltam os contatos para compartilhar aquele texto motivacional de autoria duvidosa, o meme do momento ou o último vídeo viral. Mas quem está do nosso lado para ouvir sobre os nossos perrengues? Quem empresta o ombro pra chorarmos nossas mágoas? Quem aplaude genuinamente as nossas pequenas e grandes conquistas?

A falsa impressão que nossas listas com milhares de amigos nos dão de que somos populares e queridas, pode nos fazer cair de maneira mais dolorosa na realidade de que na maioria das vezes estamos sós na multidão. Por isso é importante encontrar o equilíbrio entre o mundo virtual e o real. Talvez dedicar menos tempo em registrar, publicar e compartilhar, para investir mais tempo em cultivar relacionamentos sinceros, curtindo o momento de estar juntos, aprendendo a guardar lembranças na memória e não apenas no rolo de câmera do celular ou no feed de notícias.

Amizades verdadeiras são essenciais. Não precisam ser muitas, mas sim constantes. Daquelas que dão um puxão de orelha, mas também abraçam em silêncio e escutam. Que te desafiam a ser melhor, mas não te rejeitam por pensar ou ser diferente.

A maternidade pode nos levar a uma reformulação dos relacionamentos como os tínhamos até então. Algumas amizades desvanecem, outras surgem no seu lugar. O importante é não estarmos sós nessa caminhada. Cercar-nos, mesmo que não presencialmente, de pessoas que compartilhem nossos princípios e valores, nos apoiem em nossas escolhas e nos animem a seguir adiante. Dividir o processo de aperfeiçoamento com quem temos algo em comum certamente o tornará mais leve.

3. Fugindo da resignação em direção ao contentamento:

Estes dias me veio à mente um trecho de uma música dos Paralamas que diz: “Vai sempre ter alguém com mais dinheiro, mais respeito, mais ou menos tudo o que se pode ter; vai sempre sobrar, faltar alguma coisa…” Nos dias de hoje mais do que nunca podemos estar sempre por dentro do que sobra pros outros e falta pra nós. Redes sociais e reality shows que reforçam de maneira moderna o velho ditado de que a grama do vizinho sempre parece mais verde.

Concentrar-nos apenas naquilo que nos falta pode nos levar a um constante estado de insatisfação, que por sua vez pode nos prender à resignação ou nos empurrar à uma busca desenfreada pelo ter e ser a qualquer preço. Ambas são posturas prejudiciais.

Pelo contrário, deveríamos exercitar nossa capacidade de contentamento. Porque a verdade é que se não soubermos dar valor àquilo que temos hoje, jamais estaremos satisfeitas com o que podemos chegar a adquirir.

O contentamento não nega o presente, ele apenas nos permite ver o lado bom do momento que estamos vivendo. E também não limita o futuro, porque não nos tira o anseio de superação, apenas aumenta nossa satisfação em relação ao que já somos e possuímos.

Ele é importante para a maternidade porque nos ajuda a controlar a ansiedade em relação ao que está por vir. A não querer apressar as fases achando que a próxima será mais fácil ou melhor, o que nos impede de curtir as coisas lindas do agora. E acredite, elas existem, só precisamos ter o olhar correto para percebê-las.

4. Deixando de lado o idealismo para escolher bem as batalhas:

Nossa geração leva vantagem sobre as anteriores no que diz respeito ao acesso à informação. Temos publicações de revistas científicas, artigos, teses, pesquisas, livros, tudo ao alcance de um clique. O que antes exigia deslocamento, visita à bibliotecas especializadas ou investimento, hoje está acessível de forma gratuita via Internet onde quer que estejamos.

Conforme o conhecimento científico avança e as evidências vão sendo incorporadas pelos profissionais das distintas áreas, as recomendações vão sendo reformuladas. Coisas que nossos pais e avós fizeram com a melhor das intenções, por costume ou por orientação médica, hoje são fortemente desaconselhadas.

Ao mesmo tempo em que nos permite fazer escolhas mais conscientes, a informação aumenta o peso da nossa responsabilidade ao escolher, já que nos mostra as consequências ou riscos que assumimos ao ignorá-las.

No entanto, mesmo de posse dela, muitas de nós, por diferentes razões, não conseguiremos seguir à risca todas as recomendações para uma maternidade ou criação “ideais”. Para evitar sentimentos de culpa ou frustração, é fundamental que saibamos escolher então nossas batalhas, definir as prioridades e focar naquilo que cremos ser o mais importante. Esse processo deve ser bem embasado, envolvendo a nossa rede de apoio, levando em consideração o primordial de cada fase e podendo ser reformulado quantas vezes seja necessário.

O objetivo deve ser a saúde e o bem-estar da família como um todo, e em especial o cuidado com os mais frágeis. Se conseguimos gabaritar todos os itens do manual, que bom. Podemos desfrutar disso e também oferecer apoio àquelas que desejam trilhar o mesmo caminho. Se não conseguimos, tudo bem. Não se trata de uma competição. Não cabem julgamentos.

As batalhas escolhidas previamente de forma consciente nos preservam do sentimento de culpa e inferioridade. Cada processo de maternar é único, como únicos são seus protagonistas no seu contexto. O que não podemos é tratar de desmerecer ou relativizar a importância de determinadas batalhas só porque não as escolhemos. Esta é uma postura desonesta com aquelas que ainda estão fazendo suas escolhas e não nos acrescenta nada de bom.

5. Diminuindo as distrações para criar tempo de qualidade:

Nunca foi tão fácil andar distraída. A praticidade dos smartphones e a infinidade de coisas chamativas que eles nos mostram a todo momento são uma tentação que precisamos vencer para manter a concentração no que estamos fazendo e nas pessoas ao nosso redor. Ninguém vai negar que são uma ferramenta importante, mas o desafio é não perder o controle do tempo de uso.

Dentro do contexto familiar, a utilização de tecnologia sem restrições pode levar ao distanciamento emocional, ausência de diálogo entre o casal e entre pais e filhos, pouco tempo de qualidade compartilhado em família, desenvolvimento de maus hábitos relacionados à alimentação, ao sono, entre outros.

A distração também pode vir de algo que nos preocupa, uma situação que nos entristece, um prazo a cumprir, uma cobrança extra no trabalho, lista de tarefas a realizar no dia.

À medida que as crianças crescem a demanda de cuidados físicos vai diminuindo, mas a demanda de conexão emocional só aumenta. Muitos dos comportamentos “irritantes” dos nossos filhos, na verdade são um pedido de conexão verdadeira. Eles percebem nossa distração e distanciamento, sentem a tensão no ambiente e usam das armas ao seu alcance para conseguir o que querem e precisam: nossa atenção.

É importante que saibamos identificar esses momentos. Compreender a relação entre o comportamento dos pequenos e o nosso próprio. Se eles já entendem, explicar o que nos passa, esclarecendo que eles não são a causa. Se necessário, desligar o telefone, adiar uma tarefa, filtrar um sentimento negativo para poder dedicar algum tempo de qualidade a quem o demanda.

O mesmo vale pra noite, quando as crianças já estiverem dormindo. O casal deve aproveitar esse tempo pra conversar, se curtir, fazer algo juntos, evitando ao máximo as distrações tecnológicas que nos isolam e são um obstáculo a uma conexão genuína.

Tempo de qualidade compartilhado é o que verdadeiramente nos preenche, nos faz sentir amados, estreita os laços, cria memórias afetivas, fortalece o apego seguro nas relações. Sempre é possível diminuir um pouco mais as distrações do dia a dia para priorizar esses momentos. Pode demandar certo esforço, mas vale muito a pena.

Texto de Gabrielle Gimenez @gabicbs

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